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Responsabilidade Social • 15:33h • 15 de junho de 2026

Urbanismo deve incorporar florestas às cidades, defendem pesquisadores

Cidades amazônicas da antiguidade são bons exemplos

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Jardins do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).
Jardins do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).

As cidades do futuro precisam deixar de tratar a natureza como elemento secundário e passar a incorporá-la de forma estrutural ao planejamento urbano. Essa é a visão defendida por pesquisadores, ambientalistas e lideranças que participaram da terceira edição do Seminário Internacional Transmutar, promovido pelo Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), durante a Semana do Meio Ambiente.

Um dos destaques do encontro foi o neurobiólogo e escritor italiano Stefano Mancuso, referência mundial nos estudos sobre a inteligência das plantas. O pesquisador apresentou o conceito das fitópolis, modelo de cidade inspirado na organização dos sistemas vegetais e que propõe uma convivência mais integrada entre seres humanos e natureza.

Segundo Mancuso, as cidades precisam ser pensadas como organismos vivos, capazes de se adaptar, resistir e responder aos desafios impostos pelas mudanças climáticas. Para ele, a evolução urbana não depende apenas de soluções arquitetônicas voltadas ao conforto humano, mas da construção de uma relação mais equilibrada com os ecossistemas.

O pesquisador defende que as áreas urbanas reduzam significativamente as superfícies impermeáveis, como o asfalto, ampliando espaços arborizados e a presença de vegetação inclusive dentro dos edifícios. Na avaliação dele, uma cidade ideal deveria ter pelo menos 60% de cobertura vegetal, transporte público eficiente e ausência de veículos movidos a combustíveis fósseis.

“As plantas são sistemas altamente complexos e sofisticados. Hoje começamos a reconhecê-las com mais atenção e respeito”, afirmou Mancuso durante o evento.

Cidades-jardim e saberes ancestrais

A discussão também trouxe exemplos históricos que mostram que a convivência harmoniosa entre urbanização e natureza não é uma ideia nova. O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes Neves apresentou pesquisas sobre antigas cidades indígenas da Amazônia, algumas com mais de 2,5 mil anos de existência.

Segundo ele, essas sociedades desenvolveram formas de urbanização que integravam áreas habitadas e florestas, sem excluir os elementos naturais da vida cotidiana. Para o pesquisador, esse modelo pode inspirar soluções para os desafios das cidades atuais.

“A principal lição desse urbanismo antigo é que ele não colocava a natureza para fora da cidade. Precisamos recuperar essa ideia de cidades-jardim, em que áreas urbanas e florestas convivem de forma integrada”, destacou.

O ecólogo e curador do Museu do Amanhã, Fabio Scarano, reforçou que as plantas e demais seres vivos não devem ser vistos apenas como recursos ou componentes da paisagem. Segundo ele, reconhecer a inteligência presente em diferentes formas de vida pode ajudar a transformar a maneira como a sociedade se relaciona com o meio ambiente.

O seminário teve como tema central a transfluência, conceito desenvolvido pelo pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, falecido em 2023. A ideia propõe ultrapassar barreiras e construir relações mais profundas entre pessoas, territórios e natureza.

Para Joana Maria, filha de Nêgo Bispo e liderança quilombola do Piauí, a transfluência representa a possibilidade de reconstruir os vínculos entre seres humanos e o meio ambiente.

“Precisamos pensar a natureza como um espaço de afeto, cuidado e convivência. O rio precisa estar limpo para que possamos viver e nos relacionar com ele”, afirmou.

A gestora cultural colombiana Ana Ochoa Acosta acrescentou que a natureza contemporânea também inclui as tecnologias desenvolvidas pela humanidade. Para ela, o desafio atual não é retornar a um passado idealizado, mas aprender a conviver com a complexidade formada pela interação entre elementos naturais e tecnológicos.

Já a bióloga Sue Anne Costa, do Museu Paraense Emílio Goeldi, defendeu a necessidade de um “reencantamento” com os territórios e a biodiversidade. Segundo a pesquisadora, decisões relacionadas ao meio ambiente ainda são excessivamente guiadas por interesses econômicos e produtivos, enquanto os conhecimentos ancestrais valorizavam o cuidado e a conexão com a natureza.

O debate ocorreu no Instituto Inhotim, que além de ser reconhecido internacionalmente pelo acervo de arte contemporânea, também abriga um dos mais importantes jardins botânicos do país. Localizado em uma área de transição entre Mata Atlântica e Cerrado, o espaço conserva mais de mil espécies de plantas, promove a regeneração florestal e desenvolve pesquisas voltadas à preservação da biodiversidade brasileira.

Nos últimos anos, o instituto recuperou 75 hectares de floresta nativa e mantém um importante estoque de carbono, reforçando seu papel como exemplo de integração entre cultura, ciência e conservação ambiental.

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