Educação • 10:58h • 08 de setembro de 2026
Trocar letras ou escrever ao contrário é sinal de problema? Entenda o que observar na alfabetização
Erros fazem parte da construção da leitura e da escrita, e evolução individual da criança deve pesar mais do que comparações com colegas
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da No Ar Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
Trocas de letras, escrita espelhada, dificuldades iniciais na leitura e diferenças de desempenho entre colegas podem aparecer durante a alfabetização sem representar, necessariamente, um problema no desenvolvimento. O aprendizado da leitura e da escrita é construído gradualmente, e acompanhar a evolução individual da criança, em diálogo com a escola, ajuda a diferenciar características desse percurso de situações que precisam de maior atenção.
Segundo Carolina Paschoal, pedagoga e diretora da Escola Pedro Apóstolo, usar outras crianças como referência pode gerar expectativas incompatíveis com o momento de aprendizagem de cada aluno. “Cada criança tem seu próprio tempo, suas habilidades e sua trajetória. A comparação desconsidera essa singularidade e pode comprometer profundamente a construção de sua autoestima e de uma percepção saudável sobre si mesma”, afirma.
A alfabetização envolve tentativas, hipóteses, erros e acertos até que a criança compreenda progressivamente a relação entre aquilo que fala, escuta e escreve. Por isso, um erro isolado não permite determinar sozinho se existe uma dificuldade de aprendizagem.
De letras aleatórias até a compreensão da escrita
Uma das referências utilizadas para compreender essa construção é a Psicogênese da Língua Escrita, desenvolvida a partir dos estudos de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky. Essas contribuições dialogam atualmente com conhecimentos sobre consciência fonológica, relação entre sons e letras e fluência. As quatro fases descritas não são etapas obrigatórias para todas as crianças, mas ajudam a compreender o desenvolvimento do sistema alfabético.
Na fase pré-silábica, ainda não há uma relação consistente entre letras e sons da fala, e desenhos ou sequências de letras podem ser utilizados para representar palavras. Na silábica, a criança percebe que a escrita representa a fala e pode registrar uma letra para cada sílaba, escrevendo, por exemplo, “BNC” para “boneca”.
A fase silábico-alfabética marca uma transição, com registros que combinam diferentes formas de representar sílabas e fonemas. Quando chega à fase alfabética, a criança já compreende que as palavras são formadas por unidades sonoras menores e consegue representá-las por letras, embora erros ortográficos ainda possam ocorrer. Escrever “caza” em vez de “casa”, por exemplo, não significa que ela não esteja alfabetizada.
Família pode acompanhar sem transformar a rotina em teste
Livros, histórias e situações cotidianas envolvendo palavras podem aproximar a criança da leitura e da escrita também fora da escola. A orientação é que esse contato aconteça sem transformar cada atividade em cobrança ou avaliação de desempenho.
Família e escola também precisam manter diálogo sobre os avanços observados e os aspectos em que a criança ainda necessita de apoio. Essa troca permite acompanhar o desenvolvimento ao longo do tempo em vez de tirar conclusões a partir de uma dificuldade pontual.
Carolina ressalta que a consolidação da alfabetização pode ocorrer ao longo dos dois primeiros anos do Ensino Fundamental e recomenda cautela ao classificar precocemente determinados comportamentos como dificuldade. O acompanhamento deve considerar os avanços, as hipóteses construídas pela criança e os estímulos necessários para que continue desenvolvendo leitura e escrita.
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