Ciência e Tecnologia • 16:54h • 29 de agosto de 2026
Toneladas de sargaço estão em praias brasileiras: USP estuda transformar alga em material de construção
Fenômeno já deixou 42,8 mil toneladas de biomassa somente em praias de Salinópolis, no Pará; pesquisadores tentam melhorar o monitoramento e encontrar novos usos para o material
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da USP | Foto: Arquivo/Âncora1
Toneladas de sargaço têm chegado com maior frequência ao litoral brasileiro, formando extensos bancos de algas que alteram as condições das praias e podem afetar atividades como turismo e pesca. Pará e Maranhão concentram alguns dos maiores registros dos últimos anos, mas pesquisadores da USP alertam que o Brasil ainda não possui um monitoramento sistemático capaz de mostrar onde, quando e em que quantidade essa biomassa chega à costa.
Para dimensionar o fenômeno, pesquisadores da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP analisaram estudos científicos e notícias publicadas entre 2010 e 2025. O trabalho mostrou que as duas fontes podem se complementar: enquanto a imprensa registra rapidamente a chegada das algas e seus impactos nas comunidades, a ciência consegue identificar espécies, medir a biomassa e relacionar os eventos às condições ambientais.
O sargaço encontrado nesses grandes encalhes é formado principalmente pelas espécies Sargassum natans e Sargassum fluitans. Diferentemente das algas presas ao fundo do mar, elas flutuam livremente no oceano e podem percorrer grandes distâncias levadas pelas correntes marítimas até alcançar as praias brasileiras.
Uma única cidade recebeu 42,8 mil toneladas
A dimensão do problema ficou evidente em Salinópolis, no Pará, em 2025. Um estudo estimou que 42,8 mil toneladas de sargaço chegaram às praias do município, no primeiro trabalho brasileiro a quantificar o fenômeno por meio de coleta direta de biomassa e mapeamento aéreo com drones.
Mesmo diante desse volume, apenas cerca de 4% do material foi retirado. A operação chegou a realizar, em média, 45 viagens de caminhão por dia durante 11 dias, inclusive com reforço do governo estadual.
O Pará apareceu no levantamento como o principal foco de ocorrências no país, seguido pelo Maranhão. Ainda assim, os pesquisadores destacam que não é possível prever com precisão quando os próximos grandes volumes chegarão nem a quantidade que poderá alcançar cada região.
Por que tanto sargaço está chegando?
O aumento dos encalhes não possui uma causa isolada. O fenômeno está associado à combinação de fatores ambientais e oceanográficos, como disponibilidade de nutrientes, temperatura e salinidade da água e alterações nos padrões de ventos e correntes.
Um dos desafios brasileiros é justamente construir uma série histórica confiável. Sem dados padronizados, torna-se mais difícil acompanhar a evolução dos encalhes e preparar previamente municípios para limpeza das praias, logística, destinação da biomassa e outros impactos.
Os pesquisadores defendem, por isso, a integração dos registros científicos com as ocorrências documentadas pela imprensa. A combinação permitiria ampliar geograficamente o acompanhamento sem abrir mão da identificação científica necessária para saber exatamente quais organismos estão chegando à costa.
De problema nas praias a bloco de construção
Enquanto uma frente tenta entender e monitorar o fenômeno, outra pesquisa da USP procura descobrir o que fazer com tamanha quantidade de biomassa. Uma das possibilidades em estudo é transformar o sargaço em matéria-prima para a construção civil.
Pesquisadores estão testando tratamentos capazes de reduzir a absorção de água e melhorar a estabilidade do material. Outra frente incorpora experimentalmente a biomassa à produção de blocos de terra comprimida, avaliando suas propriedades físicas e mecânicas.
A pesquisa ainda está em desenvolvimento e não significa que o sargaço já possa ser utilizado comercialmente na construção. O objetivo é descobrir se parte de um material que chega às praias em volumes de milhares de toneladas pode, no futuro, deixar de ser apenas um problema de remoção e ganhar uma destinação útil e mais sustentável.
Aviso legal
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, integral ou parcial, do conteúdo textual e das imagens deste site. Para mais informações sobre licenciamento de conteúdo, entre em contato conosco.
Últimas Notícias
As mais lidas do mês
Educação
Quem são os alunos de Assis, Cândido Mota e Florínea que conquistaram intercâmbio internacional: veja a lista
Jovens de oito municípios estudarão no Canadá, na Irlanda e na Nova Zelândia pelo Prontos pro Mundo e devem entregar documentos até 21 de setembro