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Ciência e Tecnologia • 19:58h • 16 de fevereiro de 2026

Tempestade solar severa revela o quanto cidades médias dependem da estabilidade do Sol

Evento registrado pelo INPE em janeiro de 2026 alterou o campo magnético da Terra e retoma a discussão sobre a dependência elétrica e digital de cidades como Assis e região

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Foto: Arquivo/Âncora1

Ciclo solar 25 e sistema interligado sob pressão: o que uma tempestade solar pode significar para o interior
Ciclo solar 25 e sistema interligado sob pressão: o que uma tempestade solar pode significar para o interior

A tempestade geomagnética registrada na noite de 19 de janeiro de 2026 não provocou apagões generalizados no Brasil, mas trouxe à tona uma discussão que vai além da astronomia. O fenômeno, classificado como severo na escala internacional e monitorado pelo INPE, alterou significativamente o campo magnético da Terra e impactou a ionosfera, camada fundamental para comunicações e navegação por satélite. Em estados como São Paulo, onde cidades médias dependem integralmente de energia elétrica para manter água, internet e economia digital funcionando, o episódio funciona como um teste silencioso da infraestrutura regional.

O que aconteceu no espaço e por que isso importa

Nos dias que antecederam o evento, o Sol apresentou atividade intensa, incluindo uma explosão solar de classe X1.9 associada a uma ejeção de massa coronal extremamente rápida. Essa nuvem de partículas viajou pelo espaço a mais de 1.400 quilômetros por segundo e atingiu a magnetosfera terrestre em cerca de dois dias. O impacto comprimiu o campo magnético do planeta e desencadeou uma tempestade geomagnética classificada como G4, um dos níveis mais elevados da escala utilizada para medir esse tipo de ocorrência.

Magnetômetros do Programa EMBRACE registraram variações expressivas no campo geomagnético sobre o território brasileiro. Em termos práticos, isso significa que o ambiente espacial ao redor da Terra passou por um período de instabilidade suficiente para afetar satélites, sinais de navegação e sistemas sensíveis à variação eletromagnética.


A rede elétrica entra na equação

Tempestades geomagnéticas produzem oscilações rápidas no campo magnético terrestre. Essas oscilações podem induzir correntes elétricas adicionais em estruturas longas, como linhas de transmissão de alta tensão. Quando isso ocorre, transformadores podem operar fora de seus parâmetros ideais, o que aumenta o risco de aquecimento anormal e acionamento automático de sistemas de proteção. Em cenários extremos, esse tipo de efeito já foi associado a apagões históricos, como o registrado no Canadá em 1989.

O Brasil opera por meio do Sistema Interligado Nacional, coordenado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico. O interior paulista está integrado a essa malha extensa de transmissão, o que significa que a estabilidade da rede depende de um equilíbrio contínuo entre geração, transmissão e distribuição.

O interior paulista já conhece a pressão sobre a rede

Relatório de situação de emergência da Energisa, referente a eventos climáticos severos entre 31 de outubro e 5 de novembro de 2025, ajuda a dimensionar como a infraestrutura regional reage quando submetida a estresse elevado. Na área de concessão da Energisa Sul-Sudeste, que inclui Assis, Echaporã, Rancharia, Maracaí, Cruzália, Tarumã, Florínea, Palmital, Pedrinhas Paulista, Paraguaçu Paulista, Quatá e outros municípios da região, foram registrados 208.836 clientes afetados e 2.459 interrupções.

A duração média das falhas foi de 670 minutos, e a interrupção mais longa ultrapassou 14 mil minutos. O documento detalha danos como cabos partidos, postes tombados e transformadores avariados. Em Assis, subestações como SE Assis 1, SE Assis 2 e SE Assis 3 constam entre as estruturas impactadas.

O evento foi causado por condições climáticas severas, não por fenômeno solar. Ainda assim, ele evidencia que a recomposição da rede pode levar dias em situações de grande impacto.

Sistema Interligado Nacional |  Operador Nacional do Sistema Elétrico |  Região Assis

Dependência digital amplia a exposição

Assis possui mais de 100 mil habitantes, segundo o IBGE, e apresenta alto grau de urbanização e conectividade. Como ocorre em grande parte do interior paulista, serviços essenciais dependem integralmente de energia elétrica contínua.

O abastecimento de água depende de bombeamento. A internet doméstica depende de roteadores energizados. O comércio depende de sistemas internos e meios de pagamento digitais. Bancos digitais, Pix e maquininhas exigem conexão ativa. Empresas de tecnologia, escritórios, clínicas e negócios exclusivamente digitais operam sobre infraestrutura elétrica estável.

Em caso de interrupção prolongada, o impacto não se limita à iluminação. Ele alcança transações financeiras, logística, comunicação e prestação de serviços.

Região de Assis no mapa por LABREN - Laboratório de Modelagem e Estudos de Recursos Renováveis de Energia | Conheça aqui

Profissões e setores mais vulneráveis

Negócios que operam exclusivamente no ambiente digital são os primeiros a sentir qualquer instabilidade prolongada. Um comércio eletrônico deixa de processar pedidos se a conexão falha. Um portal de notícias sai do ar se energia e internet não estiverem disponíveis. Sistemas de gestão empresarial ficam inacessíveis sem servidores ativos ou acesso remoto.

Profissionais de tecnologia da informação enfrentam o desafio de manter sistemas operacionais mesmo diante de instabilidade energética. Em muitas estruturas, a autonomia depende de geradores ou redundância de conexão. Quando esses recursos não existem, resta aguardar a normalização da rede.

O mesmo vale para setores que dependem de GPS e sincronização digital, como transporte, agricultura de precisão e operações logísticas.

Estamos preparados para um evento de origem solar?

O Sistema Interligado Nacional possui planos de recomposição e protocolos para grandes ocorrências. Concessionárias mantêm planos emergenciais para eventos climáticos. No entanto, documentos públicos não detalham amplamente estratégias específicas para tempestades geomagnéticas de grande magnitude.

A tempestade de janeiro de 2026 não provocou colapso no Brasil, mas demonstrou que o fenômeno é real e que o ciclo solar permanece ativo. A experiência recente com eventos climáticos severos mostra que a infraestrutura regional pode ser pressionada por dias.

Manchas solares, imagem cedidas pela NASA | SWPC

Diante desse cenário, a discussão deixa de ser teórica. Não se trata de prever um evento extremo iminente, mas de avaliar o grau de resiliência de cidades altamente conectadas diante de qualquer ocorrência que afete energia e conectividade simultaneamente.

O que está em jogo

A sociedade contemporânea depende de energia elétrica e sistemas digitais para manter funções básicas. Água, comunicação, pagamentos e serviços públicos estão interligados em uma mesma base estrutural. Quando o campo magnético da Terra é perturbado, o risco não se limita ao ambiente espacial; ele pode atravessar transformadores, linhas de transmissão e redes de dados.

O evento de janeiro de 2026 mostrou que o Sol continua ativo e que fenômenos severos ainda ocorrem. Para o interior paulista, a questão central é saber se a infraestrutura regional possui margem suficiente para absorver um impacto maior sem comprometer serviços essenciais.

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