Ciência e Tecnologia • 11:48h • 23 de agosto de 2026
Tecnologia identifica pintinhos machos antes do nascimento e pode mudar produção de ovos no Brasil
Sexagem in ovo identifica o sexo ainda durante a incubação; pesquisa aponta que 79% dos brasileiros comprariam ovos produzidos com a tecnologia
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da DePropósito Assessoria | Foto: Divulgação
Uma tecnologia capaz de identificar o sexo do embrião antes do nascimento pode mudar uma prática ainda presente na produção de ovos: a eliminação de pintinhos machos. A chamada sexagem in ovo já opera comercialmente em outros países e começa a ganhar espaço no debate brasileiro, reunindo indústria, governo, empresas de tecnologia e organizações ligadas ao bem-estar animal.
O tema esteve no centro do Encontro Nacional sobre Sexagem In Ovo no Brasil, realizado no dia 3 de agosto. A discussão envolveu desde as tecnologias disponíveis até os custos para implantação, possibilidades de financiamento, regulamentação e impactos sobre a competitividade da avicultura brasileira.
Na produção de ovos, os machos das linhagens de postura não têm a mesma finalidade econômica das fêmeas e são eliminados após o nascimento. Entre os métodos utilizados internacionalmente estão a gaseificação e a trituração mecânica. A sexagem durante a incubação permite identificar antecipadamente os embriões machos e evitar que os animais cheguem a nascer para posteriormente serem descartados.
Tecnologia já avança fora do Brasil
A mudança está mais adiantada em países como Alemanha, França e Itália, que incorporaram a sexagem in ovo após restrições à eliminação de pintinhos machos. A tecnologia também avança nos Estados Unidos, Austrália e países da América Latina.
Dados apresentados no encontro indicam que aproximadamente 110 milhões das cerca de 393 milhões de galinhas poedeiras da União Europeia já são provenientes de processos que utilizam sexagem in ovo. Isso representa aproximadamente 28% do plantel informado.
No Brasil, uma pesquisa da YouGov encomendada pela Innovate Animal Ag mostrou que o assunto ainda é desconhecido pela maioria da população: 86% dos entrevistados nunca tinham ouvido falar da tecnologia. Depois de conhecerem seu funcionamento, porém, 72% disseram defender sua adoção pela indústria.
O levantamento apontou ainda que 79% comprariam ovos produzidos com sexagem in ovo e 76% aceitariam pagar um valor adicional. O acréscimo médio indicado pelos consumidores foi de R$ 3,87 por dúzia. Além disso, 73% afirmaram sentir desconforto ao saber da eliminação dos pintinhos machos.
79% dos brasileiros comprariam ovos produzidos com tecnologia que evita eliminação de pintinhos machos
Inteligência artificial ajuda a identificar embriões
Entre as tecnologias apresentadas está uma solução da empresa alemã Orbem, que combina ressonância magnética e inteligência artificial para identificar o sexo dos embriões sem perfurar a casca.
Segundo a empresa, a IA permitiu acelerar em mais de mil vezes a aquisição e a interpretação das imagens em relação aos equipamentos tradicionais de ressonância magnética. O sistema pode operar com linhagens de galinhas brancas e vermelhas e apresenta taxa de erro inferior a 1%.
Outra solução apresentada foi desenvolvida pela startup alemã Omegga. Nesse caso, imagens espectroscópicas são captadas dentro das próprias incubadoras e analisadas com auxílio de inteligência artificial, permitindo acompanhar o desenvolvimento embrionário sem retirar os ovos do equipamento.
Os ovos identificados como machos também podem ter destinação produtiva antes da eclosão, incluindo aplicações na fabricação de vacinas, ingredientes destinados à alimentação animal e outros insumos industriais.
Custo da implantação ainda é um dos obstáculos
Apesar de as tecnologias já estarem disponíveis, sua adoção em maior escala no Brasil depende de uma equação econômica. Representantes do setor discutiram mecanismos de financiamento, incentivos fiscais e apoio à importação dos equipamentos necessários aos incubatórios.
Segundo participantes do encontro, o Ministério da Agricultura informou que ainda não existe uma política nacional específica para o tema. A construção de mecanismos de incentivo dependerá também das demandas apresentadas pelo setor produtivo e pela sociedade.
A discussão ganha importância à medida que outros mercados adotam critérios de bem-estar animal e compradores e redes varejistas passam a considerar essas práticas em suas políticas de abastecimento. Para um dos maiores produtores avícolas do mundo, acompanhar essa transformação também passa a envolver competitividade.
“Este encontro representa um marco para o Brasil ao reunir, pela primeira vez, governo, setor produtivo, empresas de tecnologia, financiadores e sociedade civil para discutir os caminhos da implementação da sexagem in ovo”, afirma Liane Soares, diretora da LICA Consultoria e Ação e idealizadora do encontro.
Para Cristina Diniz, diretora-geral da Sinergia Animal no Brasil, o avanço depende agora das condições necessárias para ampliar a adoção. “O desafio agora não é provar que essa transformação é possível, mas construir as condições para que ela aconteça na velocidade que o Brasil precisa. Toda inovação passa por um momento em que parece cara ou distante. Depois, ela se torna o novo padrão”, afirma.
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