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Mundo • 15:34h • 13 de abril de 2026

Sonho de ganhar dinheiro fácil com bets se torna pesadelo financeiro para famílias

Pesquisa mostra o avanço das bets no orçamento das famílias. Presidente Lula diz que quer acabar com as plataformas de apostas online

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações da CUT | Foto: Arquivo Âncora1

O índice das famílias brasileiras endividadas atingiu o recorde de 80,4% em março deste ano.
O índice das famílias brasileiras endividadas atingiu o recorde de 80,4% em março deste ano.

A bartender de 34 anos, que até pouco tempo vivia em um bairro periférico da zona norte de São Paulo, relata como as apostas online se tornaram um vício crescente, levando muitas pessoas ao endividamento e à perda de bens conquistados.

Segundo ela, a região onde morava, próxima a bares e pontos de tráfico, era cenário frequente de adolescentes a partir de 14 anos e adultos tentando ganhar dinheiro pelo celular por meio das apostas. Muitas vezes, o dinheiro era usado para comprar drogas. Mesmo quando conseguiam algum ganho, voltavam a apostar e acabavam perdendo tudo. Nos bares, o comportamento também mudou: idosos que antes iam para socializar passaram a permanecer focados nos celulares, apostando.

A própria bartender afirma que, em um momento de dificuldade financeira, apostou R$ 20 e conseguiu ganhar R$ 240. No entanto, ao tentar sacar o valor, teve a conta bloqueada por ser beneficiária do Bolsa Família, sem receber de volta o valor apostado. Apesar do prejuízo, ela reconhece a necessidade de limites, já que presenciou pessoas perderem até carros com as apostas.

Em setembro do ano passado, o governo federal determinou o bloqueio de contas de beneficiários de programas sociais em plataformas de apostas. Três meses depois, o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux suspendeu essa restrição, mas manteve a proibição de novos cadastros para esse público.

O impacto das apostas no endividamento das famílias é apontado em estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) em parceria com a FIA Business School. Segundo a pesquisa, o efeito das bets no endividamento é quase o dobro da soma dos impactos do crédito e dos juros. O coeficiente associado às apostas foi significativamente maior do que o do crédito sobre a renda e o dos juros ao consumidor.

Dados do Banco Central indicam que, no primeiro trimestre de 2025, os brasileiros chegaram a gastar até R$ 30 bilhões por mês em apostas online.

Outro levantamento, realizado pelo Procon-SP entre dezembro de 2025 e janeiro deste ano, mostrou que quatro em cada dez apostadores ficaram endividados. A maioria gasta até R$ 100 por mês, mas uma parcela significativa aposta mais de R$ 1 mil mensais. Embora os homens com renda de até dois salários mínimos sejam maioria entre os apostadores, são as mulheres, especialmente jovens de até 30 anos e com baixa renda, as mais afetadas pelo endividamento.

O cenário se agrava com o recorde de 80,4% de famílias brasileiras endividadas em março, segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor.

Diante desse quadro, o governo federal estuda medidas para conter o avanço das dívidas, incluindo propostas de renegociação com descontos que podem chegar a 80% e a liberação de recursos do FGTS para trabalhadores.

O presidente Lula também defende a proibição das apostas no país, associando o problema não apenas ao endividamento, mas também ao agravamento de questões de saúde pública relacionadas ao vício em jogos. Ele argumenta que a promessa de ganhos rápidos contribui para o aumento das dívidas e relata casos de pessoas que perderam bens e enfrentaram consequências graves.

O tema, no entanto, enfrenta resistência política, já que o setor de apostas tem forte presença econômica e influência no Congresso.

Especialistas também alertam para os impactos na saúde. Trabalhadores endividados recorrem a empréstimos para cobrir despesas básicas e solicitam adiantamentos salariais, o que gera estresse, ansiedade, queda de produtividade e até depressão.

O governo tem tratado a dependência em jogos como um problema de saúde pública. Ainda em 2024, a então ministra da Saúde, Nísia Trindade, classificou o vício em apostas como uma espécie de pandemia e defendeu medidas semelhantes às adotadas no combate ao tabagismo.

O atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também defende restrições, como a proibição de publicidade das bets, comparando o impacto das apostas ao do cigarro no passado.

Para quem enfrenta compulsão por jogos, o Sistema Único de Saúde oferece atendimento gratuito por meio de teleatendimento, com acompanhamento de psicólogos e terapeutas ocupacionais. Outra alternativa é o mecanismo de autoexclusão, que permite ao usuário bloquear o acesso a plataformas de apostas autorizadas.

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