Ciência e Tecnologia • 10:05h • 09 de setembro de 2026
Remédio usado contra câncer reduz reservatório ligado ao HIV em estudo com macacos
Venetoclax diminuiu células infectadas no sangue e nos linfonodos, mas não eliminou o vírus; estratégia já começa a ser investigada em seres humanos
Da Redação | Com informações da CFF | Foto: Divulgação
Um medicamento já utilizado no tratamento de alguns tipos de câncer conseguiu reduzir de forma rápida e sustentada o reservatório viral em macacos infectados com o SIV, vírus usado como modelo para pesquisas sobre o HIV. O estudo, conduzido por cientistas da Universidade Emory, nos Estados Unidos, foi publicado em 3 de setembro na revista científica Nature Microbiology e abre uma nova frente de investigação sobre estratégias para alcançar a remissão do HIV.
O medicamento é o venetoclax, que atua bloqueando a proteína BCL-2. Essa proteína ajuda determinadas células a permanecerem vivas e também está presente em células infectadas que sobrevivem mesmo quando a terapia antirretroviral consegue manter a multiplicação do vírus sob controle.
Essas células formam o chamado reservatório viral, considerado um dos principais obstáculos para estratégias de cura do HIV. Elas podem permanecer no organismo durante longos períodos e voltar a produzir o vírus caso a terapia antirretroviral seja interrompida.
Reservatório diminuiu no sangue e nos linfonodos
Para avaliar o efeito do medicamento, os pesquisadores infectaram 24 macacos rhesus com o vírus da imunodeficiência símia (SIV). Os animais receberam terapia antirretroviral, com ou sem a associação do venetoclax, e foram acompanhados por até 294 dias após a infecção.
Nos animais que receberam o medicamento contra o câncer, os pesquisadores observaram redução rápida e sustentada do reservatório de SIV tanto no sangue quanto nos linfonodos. O resultado indica que interferir nos mecanismos que permitem a sobrevivência das células infectadas pode ajudar a diminuir a persistência viral.
O tratamento, entretanto, não eliminou completamente o reservatório. Parte das células permaneceu no organismo e apresentou mecanismos adicionais de proteção contra a morte celular, levando os pesquisadores a considerar combinações capazes de atingir diferentes mecanismos de sobrevivência dessas células.
Resultado não representa uma cura para o HIV
Apesar dos resultados, o estudo foi realizado em animais e não demonstra que o venetoclax seja capaz de curar o HIV em seres humanos. A próxima etapa é justamente verificar a segurança e o potencial dessa estratégia em pessoas que vivem com o vírus.
Estudos clínicos já investigam essa possibilidade. Um ensaio de fase 1 avalia o venetoclax em pessoas que vivem com HIV e utilizam terapia antirretroviral. Outro, chamado INITIATE, estuda o uso do medicamento no início do tratamento antirretroviral, buscando verificar se a intervenção pode reduzir a formação do reservatório.
A expectativa é descobrir se a estratégia poderá contribuir para diminuir o reservatório a níveis que, futuramente, permitam períodos de remissão sem necessidade de terapia antirretroviral contínua. Por enquanto, o tratamento antirretroviral permanece fundamental para o controle da infecção, e o venetoclax não deve ser utilizado contra o HIV fora de estudos clínicos.
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