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Ciência e Tecnologia • 15:16h • 10 de maio de 2026

Relógio brasileiro acompanha sono de astronautas em missão histórica da Nasa à Lua

Dispositivo criado por startup paulista com apoio da FAPESP foi levado na missão Artemis II para monitorar padrões de sono e comportamento da tripulação no espaço

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Divulgação

Tripulação do primeiro voo tripulado ao redor do satélite em meio século
Tripulação do primeiro voo tripulado ao redor do satélite em meio século

Poucas horas antes de a espaçonave Orion cruzar os céus da Flórida, nos Estados Unidos, em direção à Lua, no último dia 1º de abril, o engenheiro mecatrônico Rodrigo Trevisan Okamoto recebeu uma notícia aguardada desde o anúncio da missão Artemis II, em 2023. Um e-mail da Nasa confirmava que a tripulação do primeiro voo tripulado ao redor da Lua em mais de 50 anos levaria a bordo um dispositivo desenvolvido por ele e sua equipe da startup paulista Condor Instruments, criada com apoio inicial do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP.

Segundo Okamoto, a confirmação oficial chegou de forma inesperada e somente após o encerramento da missão a equipe soube que os astronautas já utilizavam o equipamento em testes internos havia cerca de dois anos.

O dispositivo, chamado de actígrafo, tem formato semelhante ao de um relógio de pulso e reúne acelerômetros, sensores de luz e sensores de temperatura. O objetivo é monitorar, com alta precisão, os padrões de sono e vigília dos astronautas durante dias ou semanas consecutivas.

Como funciona o actígrafo brasileiro

Actígrafo desenvolvido em pesquisas na USP

O equipamento registra os movimentos do braço do usuário para identificar períodos de atividade e repouso. A partir desses dados, os pesquisadores conseguem analisar o comportamento circadiano — o chamado relógio biológico — responsável por regular funções físicas e comportamentais ao longo de aproximadamente 24 horas.

O actígrafo também monitora a exposição à luz por meio de dez sensores capazes de detectar diferentes faixas espectrais. Essas informações são fundamentais porque a luminosidade é um dos principais fatores que regulam o sono e o funcionamento do organismo.

O professor Mario Pedrazzoli Neto, especialista em cronobiologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), explica que, no espaço, os astronautas perdem as referências naturais do ciclo claro-escuro existentes na Terra. Dependendo da posição da nave em relação ao Sol, eles podem permanecer expostos à luz ou à escuridão constantes.

Sono desregulado no espaço preocupa cientistas

Na Estação Espacial Internacional (ISS), por exemplo, os astronautas observam até 16 amanheceres e entardeceres por dia, condição que pode desregular profundamente o ciclo sono-vigília. Para amenizar esse impacto, a estação conta com sistemas de iluminação em LED que simulam o ciclo terrestre.

Segundo os pesquisadores, a privação de sono no espaço pode provocar déficits cognitivos e motores, comprometendo missões de longa duração. Por isso, a Nasa mantém estudos permanentes para entender como alterações na luz, no ambiente e até no consumo de cafeína afetam o desempenho físico e mental das tripulações.

Foi nesse contexto que nasceu o projeto Archer (Artemis Research for Crew Health and Readiness), criado pela agência espacial norte-americana para monitorar o bem-estar, os padrões de sono e o comportamento dos astronautas da missão Artemis.

Tecnologia brasileira chamou atenção da Nasa

A Condor Instruments passou a ser observada pela Nasa após a participação de representantes da startup em congressos internacionais sobre sono, cronobiologia e luz. Em 2023, a agência espacial procurou a empresa em busca de um novo fornecedor de actígrafos.

O equipamento brasileiro passou por testes rigorosos de confiabilidade e segurança até ser aprovado para uso na missão Artemis II.

Entre os diferenciais do dispositivo estão o monitoramento simultâneo da atividade motora, da temperatura corporal e da exposição à luz melanópica — faixa de luz azul-ciano que interfere diretamente na produção de melatonina e na regulação do sono.

O actígrafo também possui um botão especial para registro de eventos importantes durante a missão. Um desses momentos ocorreu em 6 de abril, quando a cápsula Orion atingiu 406.777 quilômetros de distância da Terra, estabelecendo um novo recorde de distância alcançada por humanos.

Tecnologia nasceu em pesquisas acadêmicas

A origem do actígrafo remonta a pesquisas realizadas no Centro de Estudos do Sono, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e financiado pela FAPESP. Os primeiros protótipos foram utilizados em estudos sobre os impactos do horário de verão na população brasileira.

Com apoio do programa PIPE-FAPESP, Rodrigo Okamoto e o engenheiro Luis Filipe Rossi transformaram o protótipo acadêmico em um produto comercial de alta precisão.

Atualmente, a startup exporta cerca de 80% da produção para mais de 40 países, atendendo universidades e centros de pesquisa internacionais. O dispositivo já é utilizado em estudos sobre epidemia de miopia na Ásia, recuperação de bebês prematuros e pesquisas relacionadas ao sono.

Próximo objetivo é seguir na missão Artemis

A expectativa da empresa agora é continuar fornecendo tecnologia para as próximas etapas da campanha Artemis, incluindo o futuro pouso tripulado no polo sul da Lua, previsto pela Nasa para 2028.

Para a FAPESP, o sucesso da Condor Instruments representa um exemplo de como investimentos em ciência e inovação podem transformar pesquisas acadêmicas em tecnologia estratégica com alcance internacional.

Segundo o coordenador da área de Tecnologias e Parcerias de Inovação da fundação, Rodolfo Azevedo, o caso mostra que investimentos contínuos e de longo prazo são fundamentais para o desenvolvimento de inovações de alto impacto.

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