Saúde • 14:04h • 08 de junho de 2026
Por que muitos brasileiros têm plano de saúde, mas enfrentam dificuldade para conseguir consultas?
Aumento das dificuldades para conseguir consultas, saída de médicos das redes credenciadas e barreiras para utilização de novas tecnologias estão entre os temas que ganham espaço no debate sobre o setor
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Divulgação
Durante décadas, possuir um plano de saúde foi visto como uma garantia de acesso rápido a consultas, exames e tratamentos. No entanto, sinais recentes indicam que essa percepção vem mudando para parte dos beneficiários. Embora a cobertura continue existindo formalmente, encontrar atendimento dentro da rede credenciada tem se tornado um desafio cada vez mais frequente para muitos usuários.
A discussão ganhou novos elementos com a divulgação do Relatório Global sobre Saúde Corporativa 2026, da consultoria internacional Howden. O levantamento ouviu empresas e trabalhadores em diferentes países e apontou que 59,2% dos beneficiários brasileiros já deixaram de procurar atendimento médico em algum momento por causa de custos adicionais, como a coparticipação.
Para Andrea Mendes, CEO do Grupo Hemocat e idealizadora da Cath Care, analisar apenas a questão financeira pode ocultar uma transformação mais ampla que vem ocorrendo dentro da saúde suplementar. Segundo ela, o debate precisa considerar também as dificuldades de acesso enfrentadas pelos pacientes, mesmo quando possuem cobertura contratada.
Rede credenciada menor muda a dinâmica do atendimento
Nos últimos anos, um movimento tem chamado a atenção de profissionais do setor: a redução da participação de médicos em algumas redes credenciadas. Em muitos casos, especialistas passaram a priorizar consultas particulares e modelos baseados em reembolso, alterando a forma como os pacientes acessam os serviços.
Esse cenário ajuda a explicar o crescimento de clínicas especializadas em consultas particulares, que oferecem agendamento mais rápido e valores previamente definidos. Para muitos pacientes, especialmente em situações que exigem atendimento ágil, essa alternativa acaba sendo escolhida mesmo por quem já paga mensalmente um plano de saúde.
Andrea Mendes observa que essa mudança cria uma situação contraditória. Embora o beneficiário mantenha sua cobertura ativa, o acesso ao atendimento nem sempre ocorre com a rapidez esperada. O resultado é um ambiente em que a existência do plano nem sempre se traduz automaticamente em facilidade para marcar consultas e realizar acompanhamentos médicos.
Essa realidade também tem impacto direto nas empresas. Como cerca de 70% dos planos de saúde no Brasil são corporativos, muitas organizações continuam investindo no benefício enquanto parte dos colaboradores relata dificuldades para utilizar os serviços de forma efetiva.
Inovação avança, mas acesso continua em debate
Outro ponto levantado pela especialista envolve a velocidade com que novas tecnologias e tratamentos chegam aos usuários da saúde suplementar. A medicina vive um período de avanços significativos, com diagnósticos mais precisos, procedimentos menos invasivos e ferramentas capazes de melhorar os resultados clínicos.
Apesar disso, a incorporação dessas inovações aos sistemas de cobertura costuma enfrentar processos regulatórios e financeiros que podem prolongar sua disponibilidade para os pacientes. Segundo Andrea Mendes, a busca pelo equilíbrio econômico é necessária, mas precisa ser acompanhada de uma discussão mais ampla sobre qualidade assistencial e acesso efetivo.
Na avaliação da executiva, limitar o debate apenas ao controle de despesas pode gerar consequências futuras. Custos evitados em prevenção, diagnóstico precoce ou adoção de tecnologias mais eficientes podem reaparecer posteriormente na forma de tratamentos mais complexos, internações prolongadas e maiores impactos para pacientes e operadoras.
Para ela, a sustentabilidade da saúde suplementar passa por uma análise que envolva diferentes aspectos do sistema, incluindo remuneração médica, qualidade das redes credenciadas, acesso aos serviços e incorporação responsável de inovação. Nesse contexto, a principal reflexão é sobre o papel que os planos de saúde devem cumprir para seus beneficiários.
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