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Saúde • 15:16h • 07 de janeiro de 2026

Por que a terapia precisa entrar na rotina de saúde antes das crises

Adoecimento emocional cresce no país e especialistas defendem que o cuidado terapêutico faça parte da prevenção em saúde mental

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Lara Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1

Terapia como rotina de saúde precisa ganhar o mesmo status de outras especialidades médicas
Terapia como rotina de saúde precisa ganhar o mesmo status de outras especialidades médicas

O avanço dos transtornos emocionais como uma das principais causas de incapacidade no mundo recoloca a terapia no centro do debate sobre saúde preventiva. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que a depressão atinge cerca de 322 milhões de pessoas no planeta, com crescimento superior a 18% em uma década. No Brasil, estima-se que aproximadamente 11,5 milhões de pessoas convivam com o problema. Já os transtornos de ansiedade alcançam 5,1% da população brasileira, acima da média global, enquanto condições associadas, como a fibromialgia, afetam cerca de 2,5% da população mundial e mantêm forte relação com dor crônica, ansiedade e depressão.

Para Jair Soares dos Santos, psicólogo, pesquisador e fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas, os números reforçam a necessidade de tratar o cuidado emocional como parte do check-up regular de saúde. Segundo ele, a terapia ainda costuma ser buscada apenas em momentos de colapso, quando sintomas já se instalaram de forma intensa. A defesa é que o acompanhamento terapêutico tenha o mesmo status de consultas cardiológicas ou exames laboratoriais de rotina.

Na avaliação do pesquisador, o sofrimento psíquico raramente surge de forma abrupta. Ele se acumula ao longo do tempo e se manifesta por sinais que muitas vezes passam despercebidos, como alterações persistentes no sono, irritabilidade, fadiga, dores sem causa orgânica definida e dificuldades nas relações pessoais. Ignorar esses sinais contribui para o agravamento dos quadros e para o aumento de afastamentos do trabalho, uso prolongado de medicações e sobrecarga do sistema de saúde.

Limites dos tratamentos convencionais também impulsionam o debate

Revisões recentes mostram que apenas cerca de um terço dos pacientes com depressão alcança remissão completa dos sintomas com os modelos terapêuticos mais utilizados atualmente, e o risco de recaída permanece elevado. Na América Latina, estudos apontam prevalência próxima de 29% de depressão resistente ao tratamento, chegando a cerca de 40% no Brasil. Em relação à ansiedade, abordagens tradicionais apresentam melhora dos sintomas, mas não garantem proteção duradoura em parcela significativa dos pacientes.

É nesse cenário que abordagens complementares vêm sendo estudadas. A Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG), desenvolvida por Soares, parte de princípios de neuroplasticidade e foca no reprocessamento de memórias associadas a experiências adversas. A metodologia é estruturada em cinco protocolos sequenciais, que percorrem desde eventos cronológicos da infância à vida adulta até o fortalecimento de recursos internos e a construção de cenários futuros mais adaptativos.

Uma revisão crítica publicada em 2024 na revista Mentalis descreve a TRG como uma abordagem natural e adaptativa, aplicada em quadros de depressão, ansiedade, fibromialgia, transtorno de pânico, estresse pós-traumático e ideação suicida. Os autores destacam redução consistente de sintomas em estudos iniciais e relatos clínicos, mas ressaltam a necessidade de ensaios clínicos mais amplos para consolidar evidências e definir parâmetros de uso em larga escala.

Relatos recentes também indicam resultados positivos em casos considerados resistentes

Em estudos de caso envolvendo pacientes com depressão e ansiedade que não haviam respondido adequadamente a terapias convencionais, ciclos de TRG foram associados à redução significativa dos sintomas e melhora da qualidade de vida, sempre com acompanhamento médico. O objetivo, segundo Soares, não é substituir a medicina, mas atuar sobre a raiz emocional que mantém o sistema nervoso em estado constante de alerta.

Na fibromialgia, condição marcada por dor difusa e impacto emocional, pesquisas apontam que registros emocionais não processados podem contribuir para a persistência dos sintomas. Estudos de acompanhamento descrevem melhora sustentada em indicadores de dor, funcionalidade e bem-estar após intervenções focadas no reprocessamento emocional, inclusive em pacientes que não obtiveram resposta satisfatória a tratamentos anteriores.

Especialistas alertam que grande parte das queixas em atenção primária envolve sintomas físicos sem causa orgânica clara, como dores crônicas, distúrbios do sono e fadiga persistente. Em muitos casos, o paciente transita por diferentes especialidades, realiza múltiplos exames e não encontra explicações conclusivas. A leitura clínica mais ampla sugere que o corpo pode funcionar como um mensageiro de conflitos emocionais não resolvidos.

Visão do IBFT

Para o IBFT, o desafio dos próximos anos é aproximar a prevenção emocional da rotina da população, das empresas e dos serviços de saúde. A proposta é incentivar a busca por acompanhamento terapêutico antes do surgimento de crises graves, em situações como irritabilidade constante, sensação de urgência interna, anestesia afetiva ou uso contínuo de medicamentos apenas para manter a rotina.

Nos últimos anos, o instituto estruturou um departamento de pesquisa, aprovou projetos em comitês de ética e ampliou a apresentação de estudos em congressos nacionais e internacionais. A meta é fortalecer a base científica das abordagens terapêuticas e contribuir para uma mudança cultural no cuidado com a saúde mental.

Para Soares, incorporar a terapia à rotina de saúde é um passo estratégico. Quando o cuidado emocional passa a ser preventivo, a tendência é reduzir agravamentos, afastamentos e o impacto silencioso que hoje recai sobre indivíduos, famílias e o sistema de saúde.

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