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Responsabilidade Social • 17:00h • 03 de novembro de 2025

Pesquisa da Unesp une ciência e pescadores em Iguape para proteger o tubarão mangona da extinção

Projeto conduzido no Vale do Ribeira busca alternativas sustentáveis de pesca e reforça o papel das comunidades tradicionais na preservação marinha

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Unesp | Foto: Divulgação

Estudo da Unesp aponta caminhos para salvar o mangona, o tubarão mais ameaçado do Atlântico Sul
Estudo da Unesp aponta caminhos para salvar o mangona, o tubarão mais ameaçado do Atlântico Sul

O tubarão mangona, espécie costeira criticamente ameaçada de extinção, ganhou novos aliados em sua luta pela sobrevivência. Em Iguape, no litoral sul de São Paulo, o biólogo Santiago Montealegre Quijano, docente da Faculdade de Ciências Agrárias do Vale do Ribeira da Unesp, coordena um projeto de pesquisa que aposta na colaboração direta com pescadores artesanais para reduzir a captura acidental do animal e desenvolver métodos alternativos de pesca de baixo impacto ambiental.

A espécie, que pode atingir até três metros de comprimento e 250 quilos, é facilmente capturada por armadilhas voltadas a outros peixes devido ao seu habitat próximo à costa. No Brasil, a pesca, retenção e comercialização do tubarão mangona estão proibidas desde 2014, mas a captura involuntária ainda ocorre com frequência. Características como maturação sexual tardia e baixa fecundidade dificultam a reposição natural da espécie, o que agrava o risco de extinção.

Há três anos, o grupo de Quijano trabalha junto à comunidade pesqueira local para conscientizar e testar alternativas de captura seletiva, substituindo as redes tradicionais por covos, armadilhas submersas feitas de malha, com iscas que atraem peixes menores. Por serem estruturas limitadas em tamanho, os covos impedem a entrada de tubarões e grandes espécies, reduzindo o impacto ambiental.


Unesp desenvolve projeto com pescadores do Vale do Ribeira para conservar tubarão mangona

Durante o projeto, os pescadores realizaram mais de 30 saídas embarcadas para testar o novo equipamento. Apesar dos bons resultados ambientais, as condições naturais da região dificultaram a aplicação da técnica. “A ideia de usar os covos foi maravilhosa. É uma técnica que não agride outras formas de vida e captura apenas peixes pequenos, sem colocar em risco tartarugas, golfinhos, raias ou tubarões. Mas o fundo lamacento da nossa costa torna o recolhimento muito pesado, e o trabalho é todo manual”, relata o pescador Lucas Gabriel, integrante do projeto.

Mesmo sem adoção definitiva da técnica, Quijano considera os resultados significativos por aproximar a universidade das comunidades tradicionais. “Os pescadores passaram a ver a Unesp como um apoio científico, especialmente por compreenderem que eram injustamente responsabilizados quando havia captura acidental do mangona”, explica. O pesquisador pretende testar novos formatos de covos que evitem o acúmulo de lama e permitam o uso mais prático nas condições locais.


O tubarão mangona | Foto: Christopher Mark

O biólogo também colabora com pesquisadores do Fórum para a Conservação do Mar Patagônico e Áreas de Influência, iniciativa internacional organizada pela Wildlife Conservation Society (WCS) e pela BirdLife International (BLI). O fórum reúne especialistas de diversos países para elaborar planos de conservação e mapeamento de espécies ameaçadas.

Segundo o relatório elaborado entre 2017 e 2020, a população de tubarões mangona sofreu redução estimada de 80% nos últimos 74 anos, e no Brasil a espécie praticamente desapareceu entre as décadas de 1980 e 1990. Embora a proibição da pesca tenha representado um avanço, a situação ainda é crítica em países vizinhos. Na Argentina, a pesca esportiva é liberada sob a condição de soltura do animal; no Uruguai, a captura ainda é permitida.

“O mangona era um prato muito apreciado, e muitas pessoas nem sabiam que estavam consumindo tubarão”, lembra Quijano. “Até pouco tempo atrás, era comum ver exemplares enfileirados nas praias de Santa Catarina”, complementa Renato Freitas, docente da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e colaborador do estudo.

A expectativa agora é que o diálogo entre ciência e pesca tradicional fortaleça estratégias de conservação e inspire outras iniciativas voltadas à preservação da biodiversidade marinha.

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