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Ciência e Tecnologia • 09:14h • 26 de janeiro de 2026

Pesquisa da UFPR aposta em colágeno sintético para evitar extinção de jumentos

Estudo da UFPR desenvolve colágeno por fermentação de precisão e tenta captar US$ 2 milhões para produção em escala a partir de 2027

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1

Produção de colágeno em laboratório surge como saída para crise dos jumentos no Brasil
Produção de colágeno em laboratório surge como saída para crise dos jumentos no Brasil

Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná desenvolvem uma tecnologia inédita no Brasil para produzir colágeno de jumento sem a necessidade de abate dos animais, por meio de fermentação de precisão. O projeto, conduzido pelo Laboratório de Zootecnia Celular da instituição, entra na fase final de validação técnica em 2026 e busca investimento adicional para viabilizar a produção em escala, com potencial de impacto direto na preservação da espécie, ameaçada de extinção.

A pesquisa tem como objetivo substituir o modelo atual de produção do colágeno extraído da pele de jumentos, amplamente utilizado na China para a fabricação do ejiao, uma gelatina empregada na medicina tradicional, na indústria de beleza, saúde e nutrição funcional. Estimativas apontam que esse mercado movimenta cerca de US$ 700 milhões por ano no país asiático, com crescimento acelerado da demanda.

Segundo os pesquisadores, a fermentação de precisão utiliza micro-organismos geneticamente modificados para produzir proteínas animais específicas. No caso do estudo da UFPR, a proteína-alvo é o colágeno do jumento, que passa a ser produzido em laboratório sem exploração animal. No fim de 2025, a equipe concluiu as etapas iniciais de bancada e agora avança para a demonstração da viabilidade técnica do processo produtivo até o fim deste ano.

O próximo desafio é o escalonamento da tecnologia, fase em que a produção deixa os experimentos de laboratório e passa a ser testada em biorreatores de 10 e 50 litros. Para essa etapa, o projeto estima a necessidade de captação de cerca de US$ 2 milhões, valor destinado à implantação de infraestrutura capaz de viabilizar a produção em escala piloto a partir de 2027.

De acordo com Carla Molento, PhD pela Universidade McGill, no Canadá, e coordenadora do laboratório, as fases mais complexas do ponto de vista científico já foram superadas. “Avançamos nas etapas de bancada, onde está a inovação. Agora estamos prontos para inserir o DNA do colágeno de jumento em uma levedura, que funcionará como uma biofábrica, em um processo semelhante ao da produção de cerveja”, explica.

O projeto conta com financiamento do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio do Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais, além da Fundação Araucária, da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e do Governo do Paraná. Há ainda parceria estratégica com a Universidade de Wageningen, referência internacional em biotecnologia para produção de proteínas alternativas.

A expectativa da equipe é apresentar, até dezembro de 2026, a prova de conceito da tecnologia, com a produção de miligramas de colágeno de jumento obtido integralmente por fermentação de precisão. As três primeiras etapas, que envolvem sequenciamento, amplificação e preparação do DNA, já foram concluídas com sucesso.

Além do potencial econômico, a pesquisa pode contribuir para frear o colapso populacional dos jumentos. Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e do Agrostat indicam que a população de jumentos no Brasil caiu 94% entre 1996 e 2024. “De cada 100 jumentos que existiam há 30 anos, hoje restam apenas seis”, afirma Patricia Tatemoto, PhD em Ciências pela USP e coordenadora da organização no Brasil.

Atualmente, o abate desses animais ocorre de forma extrativista e concentrada em poucos abatedouros no interior da Bahia, sem impacto relevante na economia local. Para os pesquisadores, a fermentação de precisão representa uma alternativa mais eficiente do ponto de vista produtivo, ambiental e ético. Em um espaço reduzido, com biorreatores, é possível produzir maior volume de proteína, com menos insumos e sem criação ou abate de animais.

A equipe avalia ainda que o colágeno produzido em laboratório, por ser altamente purificado, tem potencial para comercialização no modelo B2B, atendendo empresas que já fabricam produtos finais na China e em outros mercados. Para os pesquisadores, a tecnologia pode funcionar como porta de entrada para a consolidação de proteínas alternativas no setor produtivo, unindo inovação científica, sustentabilidade e conservação da biodiversidade.

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