Saúde • 07:27h • 14 de setembro de 2026
Pescoço torcido, olhos piscando e mãos contraídas podem ser sinais de distonia
Transtorno neurológico provoca contrações persistentes, posturas incomuns e pode ser confundido com problemas musculares ou ortopédicos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Divulgação
Contrações musculares persistentes, movimentos involuntários e posturas incomuns ou repetitivas podem indicar distonia, um transtorno neurológico raro que afeta os circuitos cerebrais responsáveis pelo controle dos movimentos. Segundo estimativa do Ministério da Saúde, mais de 65 mil pessoas convivem com a condição no Brasil, mas o número pode ser maior devido ao subdiagnóstico.
A doença pode surgir da infância à terceira idade e atingir uma ou várias partes do corpo. Quando aparece em apenas uma região, como pescoço, olhos ou mãos, é classificada como focal. Também existem formas segmentares, multifocais e generalizadas, definidas conforme a localização e a quantidade de áreas comprometidas.
As possíveis causas incluem alterações genéticas, lesões no sistema nervoso, infecções, Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) e uso de determinados medicamentos. Em alguns pacientes, contudo, não é possível identificar a origem do transtorno.
Sintomas podem ser confundidos com outros problemas
Na distonia cervical, as contrações provocam inclinação ou rotação involuntária da cabeça. O blefaroespasmo causa piscamentos repetitivos, enquanto a forma oromandibular afeta músculos da face, boca e mandíbula, podendo dificultar a fala e a mastigação. Há ainda manifestações relacionadas a tarefas específicas, como a câimbra do escrivão, que compromete os movimentos das mãos durante a escrita.
O diagnóstico é predominantemente clínico e deve ser realizado por neurologista especializado em distúrbios do movimento. A avaliação considera o histórico do paciente, as regiões afetadas, as situações que desencadeiam ou agravam as contrações e a presença de outros sinais neurológicos.
Segundo o neurocirurgião Marcelo Valadares, responsável pela área de Neurocirurgia Funcional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os sintomas podem surgir discretamente durante atividades como escrever, caminhar ou executar movimentos específicos. “Com a evolução do quadro, as contrações podem se tornar mais frequentes e, em algumas pessoas, também podem acontecer em repouso”, explica.
A demora no diagnóstico ocorre porque os primeiros sinais podem ser interpretados como alterações musculares ou ortopédicas. Além dos movimentos involuntários, a distonia pode provocar dor crônica, fadiga, ansiedade, depressão e limitações para trabalhar, dirigir, caminhar ou realizar tarefas cotidianas.
Tratamento pode controlar os sintomas
Embora a maioria das formas de distonia não tenha cura, medicamentos, fisioterapia e outras estratégias de reabilitação podem reduzir as contrações, aliviar a dor e melhorar a funcionalidade. Nos casos focais e segmentares, a aplicação de toxina botulínica pode diminuir temporariamente a atividade dos músculos envolvidos.
Pacientes com quadros graves e sem resposta adequada aos tratamentos convencionais podem ser avaliados para a estimulação cerebral profunda. O procedimento utiliza eletrodos implantados em regiões específicas do cérebro para modular os circuitos relacionados aos movimentos.
“A cirurgia de estimulação cerebral profunda não é indicada para todos os pacientes”, ressalta Valadares. A decisão considera a causa da doença, a gravidade dos sintomas e a resposta às terapias anteriores. Estudos também investigam sistemas capazes de ajustar a estimulação conforme a atividade cerebral, mas essa aplicação adaptativa ainda é experimental para a distonia.
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