Mundo • 19:41h • 05 de janeiro de 2026
Pedidos de demissão disparam após as festas e colocam saúde emocional no centro da estratégia das empresas
Alta rotatividade no início do ano expõe desgaste emocional acumulado, pressiona áreas de RH e leva empresas a mapear riscos antes da virada do calendário
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Lara Assessoria | Foto: Divulgação
O início do ano costuma marcar um pico de pedidos de demissão no mercado de trabalho brasileiro. Após o recesso e as festas, muitos profissionais retornam com decisões amadurecidas ao longo dos meses anteriores. Dados do Global Talent Trends Report, do LinkedIn em parceria com a PwC, mostram que o Brasil lidera o ranking mundial de turnover voluntário, com 56% dos desligamentos ocorrendo por iniciativa do próprio trabalhador, acima da média global, estimada em cerca de 38%.
Segundo a psicóloga e advogada Jéssica Palin, especialista em saúde emocional corporativa, o fim de ano funciona como um período de balanço pessoal e profissional. Janeiro, nesse contexto, se torna o momento em que decisões adiadas são colocadas em prática. Quando há desgaste emocional, conflitos não resolvidos ou sensação de falta de escuta, o pedido de demissão tende a surgir logo nas primeiras semanas do ano.
O impacto da rotatividade vai muito além da reposição de vagas. Levantamento da Gallup aponta que o custo para substituir um colaborador pode variar entre 50% e 200% do salário anual, considerando perdas de produtividade, recrutamento, tempo de adaptação e reflexos no clima organizacional. Em um mercado com alta rotatividade, esse efeito compromete diretamente os resultados financeiros das empresas.
A mesma Gallup destaca que o fator emocional tem peso decisivo na permanência dos profissionais. Colaboradores emocionalmente engajados são 59% menos propensos a buscar outro emprego de forma ativa. Já entre aqueles que relatam exaustão, conflitos recorrentes ou falta de reconhecimento, a intenção de saída costuma crescer justamente após períodos de pausa, como férias e recessos prolongados.
Diante desse cenário, empresas passaram a adotar estratégias preventivas antes mesmo da virada do calendário. O foco está no mapeamento de riscos emocionais, com diagnósticos estruturados que identificam sinais de esgotamento, falhas de liderança e conflitos silenciosos. A lógica é simples: o que não é tratado ao longo do ano tende a se manifestar em forma de desligamento no início do seguinte.
“O emocional mal gerido custa caro em dinheiro, clima e reputação. Quando a empresa reage apenas depois do pedido de demissão, o problema já deixou de ser individual e passou a ser estrutural”, explica Palin. Segundo ela, a leitura antecipada do clima emocional permite ajustes ainda no fim do ano, reduzindo perdas no primeiro trimestre.
A pressão por mudanças também cresce com a consolidação da Geração Z no mercado de trabalho. Pesquisa global da Deloitte indica que 76% desses profissionais priorizam a saúde mental na escolha do emprego, e quase metade relata níveis frequentes de ansiedade. Esse perfil tende a reagir mais rapidamente a ambientes emocionalmente desorganizados.
Além do aspecto cultural, o tema ganhou peso regulatório. Em 2024, foi sancionada a Lei nº 14.831, que instituiu o Certificado de Empresa Promotora da Saúde Mental. No mesmo ano, a Portaria nº 1.419 do Ministério do Trabalho atualizou a NR-1 e passou a incluir oficialmente os fatores psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
Para especialistas, janeiro se tornou um termômetro da saúde emocional das equipes. O volume de pedidos de demissão revela, de forma clara, o que foi negligenciado ao longo do ano anterior. Empresas que conseguem agir antes da ruptura preservam talentos e reduzem perdas. As que ignoram os sinais tendem a entrar em um ciclo contínuo de rotatividade.
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