Responsabilidade Social • 15:43h • 22 de agosto de 2026
Pastagens e lavouras às margens de rodovias aumentam risco de atropelamento de animais
Estudo da Unesp analisou sete anos de ocorrências na Rodovia Dom Pedro I e aponta que áreas agrícolas também devem ser consideradas na implantação de passagens de fauna
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Unesp | Foto: Divulgação
A presença de pastagens e lavouras no entorno de rodovias pode aumentar o risco de atropelamento de animais silvestres, inclusive de espécies consideradas vulneráveis ou ameaçadas de extinção em São Paulo. A conclusão é de um estudo conduzido por pesquisadores da Unesp a partir de sete anos de registros da Rodovia Dom Pedro I, uma das principais vias do estado.
O trabalho chama atenção para um aspecto que pode mudar a forma como são planejadas medidas de proteção à fauna. Atualmente, estruturas como cercas e passagens para animais costumam ser definidas principalmente pela proximidade de remanescentes florestais e pela identificação de pontos com maior concentração de atropelamentos. Os pesquisadores indicam que o uso da terra ao redor das estradas também precisa entrar nessa análise.
O problema tem dimensão ambiental e de segurança viária. Estimativas citadas no estudo apontam que cerca de 9 milhões de vertebrados são vítimas de atropelamentos por ano no Brasil. Apenas nas rodovias administradas pelo Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo (DER-SP), foram registrados 5.150 atropelamentos de animais silvestres em 2025.
Risco não está restrito às áreas de floresta
A pesquisa confirmou que trechos próximos a remanescentes florestais apresentam maior risco para espécies diretamente associadas a esses habitats. O resultado que chamou a atenção dos pesquisadores, porém, apareceu nas áreas ocupadas por pastagens e produção agrícola.
Esses ambientes também são utilizados por animais de comportamento generalista, ou seja, espécies capazes de circular por diferentes tipos de paisagem. Com isso, lavouras e pastos próximos às pistas podem representar áreas relevantes para identificar onde existe maior possibilidade de travessias e colisões.
Publicado na revista científica Wild, o estudo defende que essa característica seja considerada na definição de novos locais para estruturas de proteção. A discussão é especialmente importante na Mata Atlântica, marcada pela fragmentação dos remanescentes naturais e por diferentes formas de ocupação do território.

Mais de 24 espécies apareceram nos registros
Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram dados fornecidos pela concessionária Rota das Bandeiras referentes aos atropelamentos registrados entre 2014 e 2021 na Rodovia Dom Pedro I. A estrada possui 145 quilômetros, liga Jacareí a Campinas e recebe aproximadamente 450 mil veículos por dia.
A via também atravessa o Corredor Cantareira-Mantiqueira, área de importância ecológica criada para favorecer a conexão entre fragmentos de Mata Atlântica existentes entre o Parque Estadual da Cantareira e a Serra da Mantiqueira.
Ao longo do período analisado, mais de 24 espécies de mamíferos de médio e grande porte foram vítimas de acidentes. Entre elas aparecem o tamanduá-bandeira, a jaguatirica, o lobo-guará e a onça-parda, espécies ameaçadas ou classificadas como vulneráveis no estado de São Paulo.
A capivara, apesar de não ser considerada uma espécie em risco, chama atenção pelo volume de ocorrências: esteve envolvida em 60% dos atropelamentos analisados. Por serem acidentes que podem envolver animais de médio e grande porte, as ocorrências também representam perigo para motoristas e passageiros.
Os resultados reforçam a necessidade de observar não apenas onde os atropelamentos já acontecem ou onde existem áreas florestais, mas também como a paisagem ao redor das rodovias é ocupada. A inclusão de pastagens e lavouras nesse planejamento pode ajudar a direcionar cercas, passagens de fauna e outras medidas para pontos onde animais efetivamente circulam.
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