Variedades • 17:10h • 18 de outubro de 2026
O que acontece quando um jornalista decide ficar uma semana longe do barulho do mundo?
Em plena disputa eleitoral de 2026, decidi passar uma semana sem acessar minhas redes sociais pessoais, acompanhar a televisão aberta ou consumir notícias políticas
Artigo | Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Foto: Âncora1®
Nos primeiros dias, peguei o celular diversas vezes procurando alguma coisa que já não estava onde costumava estar. Era um movimento quase involuntário, meus dedos conheciam o caminho, meus olhos procuravam os aplicativos e, por alguns instantes, eu parecia não compreender o que estava faltando. Não era uma mensagem importante, uma ligação ou alguma necessidade profissional, era simplesmente o hábito de entrar nas redes sociais. Um comportamento tão incorporado à minha rotina que precisei interrompê-lo deliberadamente para perceber sua dimensão.
Sou jornalista e, durante sete dias, decidi me afastar das minhas redes sociais pessoais, da televisão aberta, do rádio e do consumo de notícias políticas, polêmicas ou sensíveis. A experiência aconteceu em outubro de 2026, justamente durante uma das semanas mais intensas do calendário eleitoral brasileiro, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais. Em um ambiente marcado pela polarização, pelos conflitos ideológicos e pela circulação incessante de informações, resolvi fazer algo que, para alguém da minha profissão, parecia contraditório, deixar de acompanhar boa parte do que estava acontecendo.
Não foi uma decisão contra a tecnologia, tampouco uma tentativa de abandonar o jornalismo. As redes sociais do portal de notícias do qual sou fundador e editor, continuaram funcionando normalmente. O experimento envolveu exclusivamente meus perfis pessoais no Instagram, Facebook, TikTok, X e outras plataformas semelhantes. Os reflexos profissionais existiram, naturalmente, mas encontrei alternativas para continuar trabalhando. Meu objetivo era compreender o que aconteceria comigo, como indivíduo e jornalista, ao interromper um fluxo de informações que havia se tornado praticamente permanente.
Ao completar uma semana, percebi que havia recuperado algo que, durante muito tempo, nem sequer havia notado que estava perdendo, meu tempo. Mas essa foi apenas uma das descobertas.
Quando o hábito começa a controlar nossas escolhas
A primeira providência foi modificar a localização dos aplicativos no celular. Parece uma mudança insignificante, mas revelou algo que me surpreendeu; repetidas vezes, procurei visualmente os ícones nos lugares onde costumavam estar. Não precisava necessariamente acessar aquelas plataformas, eu simplesmente procurava por elas.
Depois, utilizei os recursos de controle de tempo do iPhone para estabelecer restrições de acesso. Configurei limites que impediam o uso habitual dos aplicativos, exigindo uma decisão consciente para ultrapassar o bloqueio, o sistema oferecia alternativas para adiar a restrição por alguns minutos ou pelo restante do dia. Foi uma maneira de criar uma barreira entre o impulso e a ação.
Essas medidas não foram suficientes para medir cientificamente qualquer dependência, mas me permitiram observar um comportamento que eu próprio já não percebia. Havia uma automatização evidente, eu procurava as redes sociais mesmo quando não tinha uma razão específica para acessá-las. Nos primeiros dois dias, senti uma espécie de vazio, uma necessidade de encontrar alguma coisa no telefone, acredito que buscava aquela atualização constante, a sensação de estar acompanhando tudo em tempo real.
Aos poucos, essa necessidade começou a diminuir e, quando deixou de ocupar tanto espaço, outras possibilidades apareceram.
Voltei a procurar formas de entretenimento que estimulassem meu raciocínio. Uma delas foi a Letroca, um jogo de palavras em que precisamos formar combinações a partir de um conjunto de letras. Descobri também um sistema de conquistas dentro do aplicativo e, como gosto de desafios, passei a estabelecer pequenos objetivos. Era uma atividade simples, gratuita, sem disputas ideológicas, sem discussões agressivas e sem a necessidade de acompanhar a vida de outras pessoas.
Também passei a dedicar mais tempo a documentários, séries e conteúdos relacionados à ciência, à educação, à cultura, à saúde e à tecnologia. Não abandonei a internet, apenas mudei a maneira de utilizá-la. Em vez de consumir indiscriminadamente o que aparecia diante de mim, comecei a selecionar aquilo que realmente desejava conhecer. A diferença pode parecer pequena, mas, na minha experiência, foi enorme.
Sete dias sem acompanhar o barulho do mundo
Estabeleci critérios para o consumo de informação. Deixei de acessar portais generalistas e suas editorias políticas ou policiais, restringindo minhas consultas a fontes institucionais, órgãos públicos e conteúdos específicos que considerava relevantes para minha formação pessoal e profissional. Não acompanhei debates eleitorais, entrevistas com presidenciáveis, discussões partidárias ou os acontecimentos que normalmente dominam as redes sociais.
A televisão aberta permaneceu fora da rotina e o mesmo aconteceu com o rádio informativo. Continuei utilizando serviços de streaming para assistir a séries, documentários e ouvir música. Não foi um isolamento tecnológico absoluto, mas um afastamento consciente dos ambientes e assuntos que eu havia identificado como fontes frequentes de desgaste emocional, e foi desafiador.
Vivemos em um período no qual a informação envelhece com uma velocidade impressionante. Um acontecimento relevante pela manhã pode perder espaço poucas horas depois, substituído por outro assunto, outra polêmica, outro vídeo ou outra declaração. Para quem trabalha com jornalismo, acompanhar esse movimento faz parte da profissão, existe uma pressão permanente pela atualização, pela velocidade e pela capacidade de identificar aquilo que desperta interesse público.
Durante essa semana, abri mão de parte desse acompanhamento. Sabia que acontecimentos importantes poderiam ocorrer sem que eu tomasse conhecimento imediatamente. Em determinado momento, pensei até na possibilidade de uma notícia de enorme repercussão, envolvendo o Papa, chegar ao meu conhecimento somente horas ou dias depois.
Curiosamente, continuei recebendo informações por outros caminhos. Comunicados de assessorias de imprensa chegaram ao meu e-mail com pautas relacionadas à saúde, a doenças e à importância do diagnóstico precoce, entre eles, materiais relacionados à saúde do Papa Leão XIV e ao cantor Netinho chamaram minha atenção justamente porque dialogavam com aquela reflexão sobre o que eu deixaria de saber e como passaria a receber informações.
Outras mensagens tratavam de política, debates e sabatinas eleitorais, essas eu simplesmente descartava, sem aprofundar a leitura.
A experiência revelou uma diferença importante entre estar desconectado e estar desinformado. Eu continuava recebendo informações, mas havia deixado de acompanhar a disputa incessante pela minha atenção. Isso não significa que estivesse plenamente informado, pelo contrário, reconheço que perdi acontecimentos e deixei de acompanhar assuntos relevantes, a diferença é que essa perda foi uma escolha consciente, limitada a um experimento pessoal. Pela primeira vez em muito tempo, não senti que precisava saber de tudo imediatamente.
O silêncio também trouxe informações sobre mim
Com o passar dos dias, percebi uma mudança no conteúdo dos meus próprios pensamentos. A indignação frequente diante de notícias falsas, discursos agressivos, conflitos políticos e absurdos que circulavam pela internet começou a perder espaço, não porque esses problemas tivessem desaparecido, mas porque eu havia interrompido minha exposição constante a eles.
Passei a pensar mais nos meus projetos, na minha família, nas relações pessoais, na minha casa e até nas plantas que precisavam de atenção. Coisas simples, que sempre estiveram presentes, mas que agora pareciam encontrar mais espaço na rotina.
No sexto dia, fiz uma viagem de aproximadamente 500km. Na ida, estava acompanhado; na volta, sozinho. Foram horas de deslocamento, conversas e reflexões, percebi que os assuntos eram diferentes, que meus pensamentos estavam voltados para outras questões e que aquela tranquilidade havia alcançado até momentos que, anteriormente, poderiam ter sido preenchidos por preocupações e discussões sobre acontecimentos externos.
O ganho não foi apenas de tempo, foi também de disposição mental. Ousaria dizer que experimentei uma tranquilidade emocional e até espiritual que não sentia havia algum tempo. Não se trata de afirmar que as redes sociais provocam os mesmos efeitos em todas as pessoas ou que sete dias de afastamento sejam suficientes para produzir mudanças permanentes na saúde mental. Estou relatando exclusivamente o que aconteceu comigo, no meu caso, a diferença foi significativa.
Durante a experiência, também retirei fotografias e informações pessoais dos meus perfis, mantendo as contas ativas e preservando os contatos. Um amigo chegou a perguntar o que havia acontecido, expliquei que se tratava de uma decisão pessoal, embora inevitavelmente relacionada à minha profissão.
Eu não queria desaparecer, queria compreender por que havia me acostumado a estar tão presente em ambientes que, nos últimos tempos, me proporcionavam mais desgaste do que satisfação.
Do Orkut ao TikTok, o que aconteceu com as redes sociais?
Para compreender essa relação, considero necessário olhar para a transformação das próprias plataformas. Quem acompanhou a popularização do Orkut no Brasil, especialmente entre 2007 e 2008, provavelmente se lembra de uma experiência bastante diferente daquela que encontramos atualmente. As comunidades, os depoimentos, os recados e as fotografias faziam parte de um ambiente essencialmente voltado à convivência e à descoberta de pessoas com interesses semelhantes.
O Facebook ampliou essa dinâmica, o YouTube consolidou novas possibilidades de produção e distribuição de vídeos, o LinkedIn desenvolveu um ambiente voltado às relações profissionais, o Twitter popularizou uma comunicação rápida, marcada por mensagens curtas e pela repercussão instantânea dos acontecimentos.
O Instagram, lançado em 2010 e inicialmente disponível apenas para iPhone, começou com uma proposta fortemente associada à fotografia artística. Lembro-me daquela fase em que filtros, enquadramentos e imagens conceituais tinham grande destaque. A cultura das selfies, a exposição cotidiana da intimidade e a "profissionalização" dos influenciadores ainda não ocupavam o espaço que conquistariam posteriormente.
Com o passar dos anos, essas plataformas foram incorporando novas funcionalidades, modelos de negócio, publicidade, transmissões ao vivo, vídeos curtos, ferramentas comerciais e sistemas cada vez mais sofisticados de recomendação de conteúdo. O TikTok acelerou a popularização de uma experiência na qual o usuário não precisa necessariamente escolher quem deseja acompanhar para receber uma sequência praticamente interminável de publicações.
As redes sociais deixaram de funcionar apenas como espaços de relacionamento, elas tornaram-se ambientes de entretenimento, comércio, publicidade, informação, disputa política e influência comportamental.
Essa transformação trouxe benefícios extraordinários; aproximou pessoas, criou oportunidades profissionais, ampliou o acesso à informação, abriu mercados e permitiu que pequenos empreendedores alcançassem consumidores sem depender exclusivamente de estruturas comerciais tradicionais. Mas também criou problemas que, na minha avaliação, cresceram em proporções preocupantes.
Quem decide o que merece nossa atenção?
Uma das mudanças mais profundas está na maneira como os conteúdos chegam até nós. Durante muito tempo, a experiência nas redes sociais esteve mais diretamente associada às pessoas e páginas que decidíamos acompanhar, hoje, boa parte daquilo que aparece nas telas é selecionada por sistemas de recomendação que consideram nosso comportamento, nossos interesses, nossas interações e inúmeros outros sinais.
Isso significa que a publicação de um conteúdo não garante sua distribuição, assim como o número de seguidores não assegura que determinada mensagem chegará a todos eles.
Os algoritmos passaram a exercer enorme influência sobre a visibilidade das informações, e essa influência não é neutra em seus efeitos, mesmo quando resulta de critérios comerciais, técnicos ou de engajamento. Aquilo que desperta atenção, provoca reações e mantém as pessoas conectadas pode adquirir vantagens importantes nos mecanismos de distribuição.
Minha preocupação aumenta quando essa estrutura se encontra com interesses políticos, ideológicos e econômicos. Há denúncias, pesquisas e disputas públicas sobre a atuação das plataformas na moderação de conteúdos, na circulação de desinformação e no tratamento de determinados discursos. Nem toda diferença de alcance representa favorecimento ideológico deliberado, mas a falta de transparência sobre muitas dessas decisões dificulta a compreensão de como esse poder é exercido.
A aquisição do Twitter por Elon Musk, em 2022, por mais de US$ 40 bilhões, ajuda a dimensionar a importância estratégica dessas empresas. Estamos falando de um empresário envolvido com exploração espacial, veículos elétricos, conectividade e projetos tecnológicos de grande escala, que decidiu investir uma quantia extraordinária em uma plataforma de comunicação.
A rede, posteriormente rebatizada como X, passou por mudanças profundas sob sua administração. Independentemente das avaliações sobre essas decisões, considero significativo que uma plataforma digital tenha despertado tamanho interesse de alguém com atuação em setores tão distintos da tecnologia.
Isso demonstra, ao menos, que redes sociais não são apenas aplicativos utilizados para publicar fotografias ou compartilhar opiniões, elas são estruturas capazes de influenciar mercados, debates públicos e relações sociais em escala global. E existe um detalhe que frequentemente esquecemos, o espaço que ocupamos nessas plataformas não nos pertence.
A violência que aprendemos a tolerar
Talvez uma das transformações mais preocupantes seja a naturalização da agressividade. Discursos de ódio, ataques pessoais, ameaças, campanhas de intimidação e conteúdos violentos passaram a fazer parte da experiência cotidiana de muitos usuários. No X, por exemplo, a circulação de pornografia explícita e a exposição a materiais sensíveis levantam discussões sobre os limites da moderação. Em situações ainda mais graves, existem denúncias e investigações envolvendo materiais de exploração sexual infantil, violência contra animais e outras práticas criminosas.
É necessário distinguir conteúdos adultos legalmente permitidos de materiais ilegais. Mas também é necessário questionar como ambientes frequentados por milhões de pessoas lidam com riscos tão diferentes e quais mecanismos efetivamente impedem a disseminação de conteúdos criminosos.
A desinformação acrescenta outra camada a esse problema. Recentemente, publiquei no Âncora1 uma notícia baseada em um alerta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre a falsa alegação de que a ivermectina seria capaz de combater tumores cancerígenos. O assunto me causou tamanha indignação que optei por um título deliberadamente contundente:
"Parece mentira que, em pleno 2026, a gente tenha que explicar que ivermectina não combate câncer".
A situação é reveladora já que em uma época de avanços científicos extraordinários, ainda precisamos explicar que um medicamento não possui eficácia comprovada contra uma doença para a qual está sendo falsamente promovido. E o problema ultrapassa a circulação de uma informação incorreta.
Quando alguém acredita em uma promessa sem fundamento e abandona ou adia tratamentos adequados, a desinformação pode colocar vidas em risco. O que mais me preocupa é a desigualdade entre o alcance da mentira e o alcance de sua correção.
Uma publicação falsa pode circular durante horas ou dias, acumular compartilhamentos e alcançar um público enorme, quando finalmente é removida ou desmentida, o esclarecimento dificilmente percorre o mesmo caminho. O conteúdo original já influenciou percepções, alimentou conversas e, em determinadas circunstâncias, provocou decisões. É como tentar limpar uma sujeira que continua se espalhando.
O enxame digital e as crises fabricadas
A agressividade também adquiriu formas de organização que considero particularmente perigosas, basta uma publicação, uma declaração ou um trecho de vídeo para que determinada pessoa se transforme no alvo de uma mobilização coletiva. Às vezes, o conteúdo apresentado está fragmentado, foi retirado de contexto ou recebeu uma interpretação completamente diferente daquela que teria se fosse exibido integralmente. Mesmo assim, a reação pode ser imediata.
Costumo comparar esse comportamento a uma colmeia. Dependendo de onde alguém toca, não aparece apenas uma abelha, surge um enxame inteiro. Nas redes sociais, esse enxame pode assumir a forma de milhares de comentários ofensivos, denúncias coordenadas, ataques pessoais e campanhas para derrubar perfis ou comprometer reputações.
É o ambiente dos chamados haters, pessoas que utilizam as plataformas para hostilizar, perseguir ou atacar outras. Em determinados episódios, a pressão é tão intensa que usuários precisam restringir comentários, bloquear interações, suspender publicações ou simplesmente se afastar.
Essas ferramentas de proteção passaram a integrar a rotina digital. Criamos filtros, bloqueios, restrições, sistemas de denúncia e estratégias de gestão de crises para lidar com comportamentos que, idealmente, não deveriam ser tratados como normais. É justamente essa normalização que me incomoda.
Fomos nos acostumando com a violência, aprendemos a administrar o ódio, a contornar ataques e a conviver com a possibilidade de que qualquer manifestação pública seja transformada em uma crise.
Não tenho dados para afirmar quantas pessoas estão preparadas para enfrentar esse tipo de situação, mas minha percepção é que muitos usuários e pequenos negócios não possuem estrutura ou conhecimento para lidar com uma crise de reputação digital.
A construção de narrativas fragmentadas torna tudo ainda mais difícil. Um vídeo de poucos segundos pode circular sem contexto, provocar indignação e gerar consequências antes que alguém consiga apresentar os fatos completos. E, quando a explicação chega, muitas vezes a condenação pública já aconteceu.
Existem leis, mas a responsabilização continua sendo um desafio
Seria incorreto afirmar que as redes sociais são ambientes literalmente sem leis. O Brasil possui instrumentos jurídicos aplicáveis ao ambiente digital, incluindo a Lei Geral de Proteção de Dados, o Marco Civil da Internet, a legislação penal e as normas de proteção de crianças e adolescentes, além das regras específicas de proteção no ambiente digital.
O problema está na complexidade da fiscalização, da identificação de responsáveis, da remoção de conteúdos e da aplicação efetiva das decisões judiciais.
Em diferentes situações, plataformas são questionadas judicialmente por sua atuação diante de publicações ilegais, perfis fraudulentos, conteúdos violentos ou informações falsas. Há casos em que a retirada de determinado material ocorre somente depois de disputas prolongadas, enquanto o conteúdo continua circulando.
A situação se torna ainda mais complexa porque muitas dessas empresas possuem sedes fora do Brasil, embora ofereçam serviços a milhões de brasileiros e estejam submetidas às normas nacionais aplicáveis. A existência de legislação não significa, automaticamente, que sua aplicação seja rápida ou suficiente para impedir danos.
Esse problema não é exclusivo da internet. Em outras áreas, como o trânsito, também observamos debates recorrentes sobre a distância entre as punições previstas em lei e a percepção social de responsabilização, especialmente em casos graves envolvendo embriaguez ao volante.
No ambiente digital, porém, a velocidade de circulação das informações acrescenta uma dificuldade particular. Uma decisão judicial pode determinar a retirada de determinado conteúdo, mas não consegue apagar imediatamente todas as consequências de sua disseminação.
Enquanto discutimos responsabilidades, as plataformas continuam funcionando, os conteúdos continuam circulando e as pessoas continuam expostas.
O outro lado de uma experiência que não serve para todos
Até aqui, apresentei muitos aspectos negativos das redes sociais, seria incoerente transformar minha experiência pessoal em uma regra universal.
Nem todas as pessoas vivem a mesma relação com essas plataformas, nem todas experimentam desgaste emocional, dependência de atualização ou conflitos frequentes e para muitas, inclusive, as redes sociais são espaços de convivência, diversão, aprendizado e oportunidades.
Existe um grupo para o qual abandonar esses ambientes não é uma possibilidade simples, são as pessoas que dependem economicamente deles.
Influenciadores digitais, comerciantes, produtores de conteúdo, vendedores, profissionais autônomos e pequenos empreendedores construíram atividades inteiras dentro das plataformas. Há lojas que não possuem sites próprios e realizam praticamente todas as vendas pelo Instagram, Facebook, Marketplace ou TikTok Shop. Existem páginas de entretenimento, fofoca, reality shows e conteúdos informativos que funcionam exclusivamente nas redes sociais.
Para essas pessoas, ficar sete dias desconectado pode representar uma perda real de oportunidades comerciais, clientes, audiência e faturamento.
Durante minha experiência, deixei de visualizar publicações, anúncios e ofertas que poderiam ter aparecido na minha rotina. Isso representa menos oportunidades de exposição para empresas e criadores de conteúdo, embora não seja possível afirmar que minha ausência tenha provocado uma perda financeira efetiva para alguém. A economia digital depende justamente dessa circulação de atenção.
Uma impressão publicitária pode não resultar em venda, mas representa uma oportunidade de contato com o consumidor. Quando milhões de usuários participam diariamente desse sistema, compreendemos por que a permanência nas plataformas se tornou tão importante para tantos negócios. Por isso, não seria responsável recomendar que todas as pessoas simplesmente abandonassem suas redes sociais.
Eu pude fazer essa escolha em relação aos meus perfis pessoais, outras pessoas possuem necessidades profissionais, comerciais e financeiras que precisam ser consideradas.
O perigo de construir uma empresa em um espaço emprestado
Há alguns anos, venho chamando a atenção, inclusive em conteúdos jornalísticos, para um risco que considero frequentemente subestimado, construir um negócio inteiramente dependente de uma rede social. Costumo utilizar uma analogia simples.
Imagine que alguém lhe ofereça gratuitamente um imóvel para instalar sua loja. Você aceita, organiza as mercadorias, conquista clientes, investe em publicidade, contrata pessoas e transforma aquele espaço na principal fonte de renda da sua família. Tudo funciona bem durante algum tempo até que, em determinado momento, o proprietário decide restringir seu acesso ao imóvel.
Você não consegue mais entrar, atender seus clientes ou utilizar a estrutura que construiu. Seus contatos comerciais, seu histórico de relacionamento e boa parte da operação permanecem vinculados àquele espaço. Nas redes sociais, a situação pode apresentar consequências semelhantes.
O perfil é administrado pelo usuário, mas a plataforma pertence a uma empresa. As condições de utilização podem mudar, contas podem ser suspensas e os critérios de distribuição de conteúdo podem ser alterados. Mesmo sem perder o acesso, um empreendedor pode descobrir que suas publicações já não alcançam o público que alcançavam anteriormente.
Ter milhares de seguidores não significa possuir um canal de comunicação independente com milhares de clientes.
Há situações ainda mais delicadas, como denúncias abusivas ou coordenadas, bloqueios indevidos e dificuldades para recuperar contas suspensas. Nem toda denúncia resulta em punição, e existem mecanismos de contestação, mas o risco de interrupção de uma atividade comercial é real.
Por isso, considero fundamental que empreendedores desenvolvam alternativas. Um site próprio, canais independentes de atendimento, estratégias de relacionamento com clientes e mecanismos legítimos de preservação de contatos podem reduzir a dependência de uma única plataforma.
Não se trata de deixar de utilizar as redes sociais, trata-se de compreender que um negócio não deveria depender exclusivamente de decisões tomadas por uma empresa sobre a qual seu proprietário não possui controle. Essa preocupação também alcança familiares, funcionários e outras pessoas cuja renda depende da continuidade da atividade.
As redes sociais podem ser ferramentas comerciais extraordinárias. O risco aparece quando deixam de ser ferramentas e passam a representar a única estrutura de sustentação de um negócio.
O que realmente perdemos quando deixamos de acompanhar tudo?
A experiência também me fez refletir sobre a própria natureza da informação. Como jornalista, aprendi a reconhecer o valor da atualização, da apuração, da contextualização e da capacidade de acompanhar acontecimentos relevantes. Continuo acreditando nesses princípios, mas passei a questionar a ideia de que precisamos consumir informações continuamente para compreender o mundo.
Existe uma diferença entre conhecer fatos relevantes e acompanhar cada comentário, cada reação, cada polêmica e cada desdobramento que aparece nas plataformas. Nem tudo o que recebe grande visibilidade possui a mesma importância pública e nem tudo o que viraliza merece ocupar nosso tempo. O ambiente eleitoral de 2026 tornou essa percepção ainda mais evidente para mim.
Enquanto o país atravessa uma disputa presidencial marcada por divergências profundas, decidi não acompanhar debates, confrontos, provocações ou a circulação diária de conteúdos políticos durante uma semana. Isso não significa negar a importância da política, das eleições ou do exercício da cidadania.
Significa reconhecer que eu precisava interromper temporariamente minha exposição a um ambiente que estava interferindo negativamente na minha tranquilidade.
Também não significa que notícias de saúde, ciência, educação ou cultura estejam livres de controvérsias. Minha escolha foi pessoal e seletiva, baseada naquilo que eu desejava acompanhar naquele momento.
A experiência teve um custo informativo. Não acompanhei determinados acontecimentos e deixei de participar de discussões que mobilizaram outras pessoas.
Mas também teve benefícios que, para mim, foram maiores. Recuperei tempo, reduzi a exposição a conflitos, encontrei novas formas de entretenimento e passei a direcionar minha atenção para questões que considero importantes para minha vida.
Não sei se esses resultados permanecerão da mesma maneira ao longo dos próximos meses. Sete dias representam um período curto para conclusões definitivas, mas foram suficientes para provocar uma reflexão que eu não havia conseguido fazer enquanto continuava conectado àquela rotina.
A liberdade de sair e a necessidade de permanecer
Talvez a maior contradição das redes sociais esteja justamente nisso, para algumas pessoas, afastar-se delas significa recuperar tempo, tranquilidade e liberdade, para outras, pode significar perder clientes, oportunidades e renda. Enquanto alguns procuram uma saída, outros precisam encontrar maneiras de permanecer. Todos, em alguma medida, estão submetidos às regras de plataformas que não lhes pertencem.
Minha experiência não pretende condenar quem utiliza redes sociais, tampouco desconsiderar os benefícios que elas proporcionam. Reconheço sua importância para a comunicação, para o jornalismo, para os negócios e para as relações humanas. O próprio Âncora1 utiliza esses canais para distribuir informações, ampliar seu alcance e manter contato com o público.
A distinção está na maneira como cada pessoa se relaciona com esses ambientes e nas consequências dessa relação. No meu caso, os ônus passaram a superar os bônus.
A exposição constante à desinformação, à agressividade, às disputas ideológicas e à necessidade de acompanhar acontecimentos em tempo real estava consumindo uma parcela da minha atenção que eu já não considerava razoável.
Talvez o aspecto mais revelador dessa semana tenha sido perceber que não precisei preencher todo o espaço deixado pelas redes sociais com outras informações.
Pude simplesmente pensar. Pensar nos meus projetos, nas pessoas próximas, nas minhas responsabilidades, nas coisas que gostaria de fazer e até naquelas pequenas atividades que frequentemente adiamos porque estamos ocupados demais acompanhando a vida e as opiniões dos outros.
Ao completar sete dias, não senti vontade de retornar aos meus perfis pessoais. Não sei se essa decisão será definitiva e não pretendo transformá-la em uma promessa, a experiência continua sendo uma escolha individual, sujeita às mudanças naturais da vida.
Mas compreendi algo que considero importante compartilhar, talvez o maior poder das redes sociais não esteja apenas na capacidade de influenciar aquilo que pensamos, mas em ocupar tanto espaço na nossa rotina que deixamos de perceber quanto tempo já não dedicamos aos nossos próprios pensamentos.
Não acredito que a solução seja estabelecer uma régua universal para determinar quanto tempo cada pessoa deve permanecer conectada. Existem necessidades, realidades e experiências diferentes. O que funciona para mim pode não funcionar para alguém que depende das plataformas para trabalhar ou para manter relações importantes.
A reflexão que proponho é outra. Em algum momento, precisamos perguntar se estamos utilizando as redes sociais porque realmente queremos ou porque simplesmente nos acostumamos a estar nelas.
Durante sete dias, deixei de acompanhar boa parte do que acontecia no mundo, perdi notícias, discussões, tendências e acontecimentos que provavelmente mobilizaram milhões de pessoas.
Em compensação, tive mais tempo para acompanhar aquilo que estava acontecendo comigo, neste momento da minha vida, essa troca fez sentido.
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