Responsabilidade Social • 13:06h • 30 de janeiro de 2026
NR-1 e saúde mental: o fim da gestão que adoece pessoas
A conta invisível da saúde mental agora é obrigação legal das empresas; segundo Ana Clara Vasques Gimenez, a nova NR-1 expõe o custo oculto da má gestão
Artigo | Ana Clara Vasques Gimenez | Foto: Divulgação
Durante muitos anos, a saúde mental dos trabalhadores foi tratada como um tema individual, privado ou, no máximo, humanitário. A partir de 2026, isso muda de forma definitiva. Com a atualização da NR-1, empresas passam a ter responsabilidade objetiva na gestão dos riscos psicossociais produzidos pela própria organização do trabalho.
Não se trata de cuidar de emoções, mas de organizar o trabalho sem adoecer pessoas.
A norma exige que o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) inclua fatores como sobrecarga, pressão excessiva, conflitos, assédio, insegurança, metas inalcançáveis e falhas de comunicação. Tudo aquilo que antes era tolerado como “estilo de gestão” passa a ser tratado como risco ocupacional mensurável e prevenível.
Para as médias empresas, esse é um ponto de virada: ou se profissionaliza a gestão, ou se assume um passivo silencioso que tende a crescer.
Quando o adoecimento vira custo e risco jurídico
Os números mostram que o problema não é abstrato. O crescimento expressivo de afastamentos por transtornos mentais nos últimos anos revela que o modelo tradicional de organização do trabalho chegou ao limite. Empresas perdem produtividade, acumulam passivos trabalhistas e veem talentos se afastarem muitas vezes de forma definitiva.
A NR-1 apenas reconhece, em linguagem normativa, algo que o mercado já sente: adoecer pessoas é economicamente insustentável. O maior erro é imaginar que a adequação à NR-1 será resolvida com documentos.
A norma exige uma transformação silenciosa, mas profunda: lideranças precisam aprender a gerir pessoas, não apenas tarefas; metas precisam ser compatíveis com a realidade; canais de escuta precisam ser seguros; o erro precisa ser tratado como parte do processo e não como falha moral.
Embora a fiscalização plena ocorra apenas em 2026, a mudança exige tempo, diagnóstico e maturidade institucional. Empresas que começarem agora terão vantagem competitiva, reduzirão riscos e fortalecerão sua governança. A NR-1 não é apenas uma nova norma trabalhista. É um marco que obriga o mercado a fazer o que sempre adiou: tratar o trabalho como espaço de vida e não de adoecimento.
Por Ana Clara Vasques Gimenez, advogada e consultora em governança e responsabilidade social da empresa
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