Saúde • 10:15h • 22 de outubro de 2026
Negacionismo faz sarampo disparar nos Estados Unidos e coloca Brasil em alerta
País norte-americano registra mais de 4,4 mil casos e três mortes em 2026; especialistas alertam que discursos antivacina favorecem a circulação de uma doença altamente contagiosa
Da Redação | Com informações da EBC | Foto: Arquivo/Âncora1
O avanço do negacionismo científico e dos discursos antivacinação nos Estados Unidos está associado ao agravamento do surto de sarampo no país, que já ultrapassou 4,4 mil casos confirmados e provocou três mortes em 2026. Segundo os dados apresentados pelas autoridades de saúde, 98% dos infectados não estavam completamente vacinados. O cenário preocupa o Brasil, que registrou 61 casos neste ano, a maioria importada, e tenta impedir que o vírus volte a circular de maneira sustentada em território nacional.
A situação norte-americana ganhou novos contornos com mudanças nas recomendações de vacinação promovidas pelo governo de Donald Trump. Em agosto, a administração federal reduziu de 17 para 11 o número de imunizantes recomendados universalmente para crianças e defendeu a separação da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola.
As decisões são criticadas por especialistas por não apresentarem justificativa científica consistente e por ampliarem a desconfiança da população em relação às vacinas. A associação entre imunização e autismo, utilizada em discursos contrários à vacinação, já foi descartada por pesquisas científicas.
Para Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), o cenário representa um retrocesso na saúde pública e ameaça outros países do continente. Ele relaciona o descontrole da doença nos Estados Unidos ao crescimento dos discursos negacionistas e à perda de confiança na vacinação.
Sarampo pode voltar a circular no Brasil
O sarampo é uma das doenças infecciosas mais contagiosas e pode provocar complicações graves, especialmente em crianças pequenas, gestantes e pessoas com imunidade comprometida.
O Brasil recuperou em 2024 a certificação de eliminação da transmissão endêmica do sarampo, após perdê-la em 2019. Agora, o aumento de casos em outros países representa um risco de reintrodução do vírus.
A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) contabiliza mais de 56 mil casos e pelo menos 80 mortes no continente americano, conforme os dados apresentados.
Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), explica que a manutenção de uma cobertura vacinal de aproximadamente 95% é fundamental para evitar a circulação da doença e proteger também quem não pode receber o imunizante.
No Brasil, os índices preliminares de 2026 apontam cobertura de 95% na primeira dose da tríplice viral, mas apenas 80% na segunda, percentual ainda abaixo da meta necessária.
Desinformação ameaça conquistas da vacinação
Além do sarampo, especialistas alertam para os efeitos da desinformação sobre outras vacinas. Segundo Cunha, já existem relatos de famílias brasileiras que recusam a imunização de recém-nascidos contra a hepatite B, influenciadas por questionamentos sobre a segurança e a necessidade das vacinas.
A preocupação é que a circulação internacional de discursos antivacinação comprometa avanços conquistados ao longo de décadas, especialmente depois da experiência da pandemia de Covid-19, quando a desinformação também dificultou medidas de prevenção e proteção coletiva.
Para impedir novos surtos, as autoridades brasileiras mantêm ações de vigilância, identificação de casos importados e bloqueio vacinal. Somente no estado de São Paulo, quase 4 milhões de doses adicionais foram aplicadas neste ano, segundo os dados apresentados.
O alerta dos especialistas é que a vacinação precisa permanecer elevada mesmo quando a doença parece controlada. A redução da circulação do vírus não significa que ele tenha deixado de representar uma ameaça, especialmente em um cenário internacional marcado pela queda da confiança nas vacinas.
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