Cultura e Entretenimento • 10:47h • 20 de setembro de 2026
Música pode ir além dos ouvidos: estudo encontra efeitos na atenção e maturidade social de crianças
Pesquisa da Unesp comparou crianças que estudavam música com outras da mesma região e agora dará origem a uma investigação com 4 mil jovens sobre música e saúde mental
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Unesp | Foto: Arquivo/Âncora1
Aprender a tocar um instrumento pode produzir efeitos que vão além da habilidade musical. Uma pesquisa conduzida pela professora Graziela Bortz, do Instituto de Artes da Unesp, encontrou melhor desempenho em determinados tipos de atenção e maior maturidade social entre crianças que participavam de aulas de música. Os resultados abriram caminho para um novo estudo, muito maior, que acompanhará 4 mil adolescentes e jovens durante três anos para investigar também possíveis relações entre a prática musical e a saúde mental.
O primeiro trabalho envolveu 37 crianças de 5 a 8 anos do Programa GURI, que frequentaram aulas de música uma vez por semana durante sete meses em comunidades de São Paulo. Os resultados foram comparados aos de outras 61 crianças da mesma localidade, com idades entre 6 e 7 anos.
Além de questionários e entrevistas, a pesquisa incluiu exames de ressonância magnética. A intenção era investigar se diferenças encontradas entre os grupos poderiam estar relacionadas ao treinamento musical ou a características que as próprias crianças já apresentavam.
Trocar o foco da atenção foi uma das diferenças encontradas
Um dos resultados apareceu na chamada atenção alternada, capacidade de mudar o foco entre diferentes tarefas ou estímulos. Segundo Bortz, o grupo que estudava música apresentou desempenho melhor em alguns tipos de atenção, principalmente nessa habilidade.
Os jovens músicos também demonstraram um nível um pouco maior de maturidade social. Os resultados do estudo foram publicados na revista científica PLOS One.
A investigação parte de uma característica importante da relação entre música e cérebro. Tocar um instrumento exige uma participação diferente daquela envolvida apenas em ouvir uma música. Estudos anteriores também associam a prática instrumental a alterações nos níveis de dopamina, neurotransmissor envolvido em funções como motivação, prazer, movimento e sistema de recompensa.
Parte do acompanhamento planejado pela equipe acabou prejudicada pela pandemia de covid-19. A experiência daquele período, entretanto, levantou uma nova questão para os pesquisadores sobre o papel que a música poderia exercer diante da solidão e do sofrimento emocional.
Agora, 4 mil jovens entram na pesquisa
Essa pergunta ajudou a impulsionar uma nova fase do trabalho no Centro Interdisciplinar para o Desenvolvimento da Pesquisa em Música (CiDPMus), criado em 2025 com apoio da Fapesp e sediado no Instituto de Artes da Unesp.
A escala agora será bem maior. A previsão é envolver 4 mil adolescentes e jovens de 13 a 28 anos, participantes do Projeto Guri e da Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp Tom Jobim). O acompanhamento ocorrerá durante três anos e incluirá participantes da capital e de Bauru, Presidente Prudente e São Carlos.
A nova pesquisa também amplia as áreas envolvidas. Psicólogos, estatísticos, médicos neurologistas e psiquiatras participarão da investigação, e parte dos voluntários deverá passar por exames de ressonância magnética.
Neste semestre, o centro deve começar a testar uma escala de exposição musical dos participantes. A proposta é avançar na compreensão científica dos possíveis efeitos da experiência com música sobre o desenvolvimento e a saúde mental, reunindo conhecimentos das artes, psicologia, estatística e medicina.
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