Saúde • 18:39h • 22 de agosto de 2026
Maioria dos pacientes que descobriu HIV em estágio avançado era heterossexual, aponta estudo
Pesquisa analisou 1.615 pacientes atendidos ao longo de dez anos em hospital de Porto Alegre e reforça a importância de ampliar a testagem para além dos grupos tradicionalmente considerados de maior risco
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da CFF | Foto: Divulgação
Um estudo realizado com pacientes atendidos em Porto Alegre trouxe um dado que chama atenção para a forma como a testagem para HIV chega à população: 84% das pessoas que receberam o diagnóstico somente quando a infecção já estava em estágio avançado eram heterossexuais. A pesquisa analisou 1.615 pacientes atendidos entre 2015 e 2024 no Hospital Nossa Senhora da Conceição, do Grupo Hospitalar Conceição (GHC).
Entre todos os pacientes analisados, 407, o equivalente a 25%, descobriram que viviam com HIV somente durante a internação, quando já apresentavam condições graves relacionadas à infecção. O trabalho foi publicado na revista científica AIDS Research and Treatment.
O perfil desse grupo também ajuda a mostrar por que parte das infecções pode passar despercebida por mais tempo. Entre os recém-diagnosticados, 49% eram homens heterossexuais e 35% mulheres heterossexuais. Muitos eram empregados, casados ou viviam em união estável e tinham filhos. Apenas 10% pertenciam a minorias sexuais ou de gênero.
Três em cada quatro não tinham fatores de risco registrados
Outro resultado considerado relevante pelos pesquisadores é que somente 24% dos pacientes apresentavam fatores tradicionalmente utilizados para orientar a testagem, como uso de crack ou cocaína, drogas injetáveis, situação de rua, histórico de encarceramento ou trabalho sexual.
Isso significa que 76% não apresentavam nenhum desses fatores registrado nos prontuários e fichas analisados. Para os autores, concentrar a oferta de testes apenas em determinados perfis pode deixar de alcançar pessoas que também vivem com HIV, mas não se reconhecem ou não são identificadas dentro dos grupos tradicionalmente associados a maior vulnerabilidade.
Entre os problemas que levaram esses pacientes ao hospital estavam tuberculose, pneumocistose, toxoplasmose cerebral e pneumonia bacteriana. São infecções oportunistas que podem aparecer quando o sistema imunológico já está comprometido pela evolução do HIV.
Diagnóstico precisa chegar antes
Os resultados reforçam a importância de ampliar as oportunidades de testagem. Entre as possibilidades discutidas pelos pesquisadores estão a oferta rotineira do teste nos serviços de saúde, com direito de recusa pelo paciente, a realização do exame diante de determinados sintomas e a expansão do acesso ao autoteste e à testagem em farmácias.
A proposta não é reduzir as estratégias direcionadas às populações mais vulneráveis, mas alcançar também pessoas que podem não se perceber sob risco e, por isso, passam anos sem realizar o teste.
Os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante: o levantamento foi realizado em apenas um hospital e analisou pacientes em condições graves. Portanto, os percentuais encontrados não podem ser automaticamente aplicados à população brasileira nem representam necessariamente o perfil observado na atenção básica.
Também pode haver subnotificação de informações como orientação sexual, uso de drogas e situação de rua, já que parte dos dados depende do relato dos próprios pacientes.
O estudo reuniu profissionais do Hospital Nossa Senhora da Conceição e pesquisadores da Escola de Medicina David Geffen, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), e recebeu financiamento do National Institute of Mental Health (NIMH), dos Estados Unidos.
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