Gastronomia & Turismo • 09:14h • 02 de setembro de 2026
Lavar frango, congelar e confiar no cheiro: hábitos que não protegem contra a salmonela
Mais de 300 pessoas foram infectadas e ao menos 34 hospitalizadas; episódio não representa risco relacionado aos ovos no Brasil, mas reforça cuidados contra a contaminação dos alimentos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Central Press | Foto: Divulgação
Um surto de salmonela associado a ovos contaminados na Europa, com mais de 300 pessoas infectadas, ao menos 34 hospitalizações e uma morte relacionada ao episódio, voltou a chamar atenção para os riscos das doenças transmitidas por alimentos. Embora não haja registro de risco relacionado ao surto no Brasil, já que o país não importa ovos in natura da União Europeia, o caso expõe hábitos domésticos que podem favorecer a contaminação dentro da própria cozinha, entre eles lavar frango cru, reutilizar utensílios e confiar apenas na aparência dos alimentos.
O episódio europeu está relacionado ao consumo de ovos contaminados da produtora Laerco BV, na Bélgica, e levou a Agência Federal para a Segurança da Cadeia Alimentar da Bélgica (FASFC) a ampliar o recall dos produtos. No Reino Unido, dados provisórios de saúde pública mostram ainda um cenário de crescimento das notificações laboratoriais de Salmonella não tifoide: foram 2.020 no primeiro trimestre de 2026, contra 1.588 no mesmo período de 2025, aumento de 432 registros, equivalente a 27,2%.
A salmonela é um grupo de bactérias capaz de provocar infecções gastrointestinais, geralmente após a ingestão de água ou alimentos contaminados. Ovos e aves aparecem frequentemente associados à transmissão, mas carnes, leite não pasteurizado, frutas, verduras e outros produtos também podem carregar o microrganismo.
Os sintomas mais comuns são diarreia, cólicas abdominais, febre, náuseas e, em alguns casos, vômitos. A maioria das pessoas se recupera sem tratamento específico, mas crianças pequenas, idosos, imunossuprimidos e pacientes com determinadas condições de saúde apresentam maior risco de complicações. Em quadros graves, a bactéria pode alcançar a corrente sanguínea e provocar infecções sistêmicas e sepse.
O alimento pode parecer normal e ainda estar contaminado
Um dos aspectos que tornam a salmonela difícil de perceber no cotidiano é justamente a ausência de sinais evidentes. Um ovo, uma carne ou outro alimento contaminado pode manter cheiro, sabor, cor e aparência aparentemente normais. Por isso, observar o produto não é suficiente para determinar se ele está seguro para consumo.
O mesmo vale para algumas crenças comuns. Ovos caipiras ou orgânicos não estão automaticamente livres da bactéria, assim como guardar um produto na geladeira ou congelá-lo não elimina necessariamente a Salmonella. As baixas temperaturas ajudam a dificultar sua multiplicação, mas não funcionam como método confiável para destruir o microrganismo.
Também merece atenção o hábito de lavar ovos antes de armazená-los. A lavagem doméstica pode comprometer barreiras naturais da casca e não substitui os cuidados com armazenamento, manipulação e cozimento. Preparações que utilizam ovo cru, como maionese caseira, mousses e tiramisù, exigem atenção adicional, e o uso de ovos pasteurizados pode reduzir o risco.
Lavar o frango pode espalhar bactérias pela cozinha
Outro costume que parece aumentar a higiene, mas pode produzir o efeito contrário, é lavar o frango cru. Os respingos de água podem transportar microrganismos da carne para pia, torneira, bancada, utensílios e alimentos próximos. A segurança da carne depende do cozimento adequado e de medidas que impeçam a contaminação cruzada.
Essa transferência pode ocorrer sem que dois alimentos encostem diretamente. Uma faca usada no frango cru e depois em uma salada, uma tábua sem higienização adequada ou até as mãos podem transportar microrganismos para alimentos que serão consumidos sem passar pelo calor.
O cuidado continua mesmo depois do cozimento. Colocar uma carne pronta no mesmo prato que recebeu o alimento cru, por exemplo, pode contaminá-la novamente. Esponjas velhas, úmidas e com resíduos também podem favorecer a sobrevivência e o crescimento de microrganismos e devem ser substituídas quando estiverem desgastadas, com mau cheiro ou quando já não puderem ser adequadamente higienizadas.
Cozinhar corretamente continua entre as principais proteções
O cozimento adequado é uma das principais barreiras contra a salmonela porque temperaturas suficientemente altas destroem a bactéria. A aparência, entretanto, não deve ser o único parâmetro: um frango estar branco por dentro não garante, isoladamente, que todas as partes tenham atingido temperatura suficiente para eliminar microrganismos.
Limão e vinagre também não substituem o cozimento, assim como antibióticos não devem ser usados preventivamente ou por conta própria diante de sintomas. A maioria dos casos de salmonelose é autolimitada, enquanto o uso desses medicamentos fica reservado a situações específicas e deve ocorrer mediante avaliação médica.
Para reduzir o risco no cotidiano, os principais cuidados envolvem higienizar corretamente as mãos, manter alimentos crus separados daqueles prontos para consumo, cozinhar adequadamente, conservar perecíveis sob refrigeração e evitar preparar alimentos para outras pessoas durante episódios de sintomas gastrointestinais.
O surto europeu não significa que ovos ou frango precisem ser retirados do cardápio. O alerta está na sequência de cuidados entre a compra, o armazenamento, o preparo e o consumo. Muitas vezes, a prevenção começa justamente ao abandonar hábitos que parecem tornar a cozinha mais limpa, mas podem facilitar a circulação invisível de bactérias.
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