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Saúde • 16:07h • 25 de agosto de 2026

Jovens usam remédios contra ansiedade para buscar efeito de embriaguez

Pregabalina e outros medicamentos têm sido usados fora da indicação médica para reduzir a ansiedade e aumentar a desinibição em situações sociais, prática que preocupa especialistas pelo risco de dependência e overdose

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da CFF | Foto: Divulgação

Por que jovens estão usando medicamentos para se sentir desinibidos sem beber álcool
Por que jovens estão usando medicamentos para se sentir desinibidos sem beber álcool

Uma mudança no comportamento de parte dos jovens tem chamado a atenção de pesquisadores e profissionais de saúde em diferentes países. Em vez do álcool, alguns passaram a recorrer a medicamentos para controlar a ansiedade e, ao mesmo tempo, buscar desinibição em festas, encontros e outras situações sociais.

Entre os medicamentos usados dessa forma está a pregabalina, indicada para condições como epilepsia e dores neuropáticas. Há também relatos do uso de betabloqueadores, como o propranolol, para diminuir manifestações físicas da ansiedade, como aceleração dos batimentos cardíacos e tremores. O problema começa quando medicamentos passam a ser consumidos sem finalidade terapêutica e fora da orientação profissional.

O fenômeno ganhou espaço principalmente nas redes sociais, onde circulam vídeos e publicações que apresentam combinações de medicamentos como uma alternativa ao álcool. A percepção de que um remédio seria necessariamente mais seguro por ter uso médico também contribui para o comportamento.

Uso da pregabalina cresce e preocupa

Um estudo publicado na revista Nature Communications estimou que o consumo mundial de pregabalina mais do que quadruplicou entre 2008 e 2018. Na Inglaterra e no País de Gales, o medicamento foi mencionado em 2.360 certidões de óbito por envenenamento entre 2020 e 2024, número três vezes maior que o registrado nos cinco anos anteriores.

Outros países também passaram a reagir ao uso indevido. A China restringiu as vendas online do medicamento neste ano, enquanto Índia, Jordânia e Ucrânia registram preocupação semelhante.

O pesquisador Liam Knowles, da Universidade de Teesside, chama atenção para outro problema: a compra em sites ilegais. Nesses casos, além dos riscos associados ao próprio medicamento, não há garantia sobre a procedência, composição ou quantidade da substância presente nos comprimidos.

De uma festa para a rotina

Um dos riscos apontados pelos especialistas é que o consumo ocasional avance para outras situações da vida. A psicóloga Emily Jones, do King's College London, explica que recorrer repetidamente a medicamentos para enfrentar a ansiedade social pode reforçar a sensação de que a pessoa não consegue interagir sem uma substância.

Relatos reunidos sobre o fenômeno mostram justamente essa progressão. Jovens que começaram utilizando medicamentos em festas passaram a recorrer a eles antes de provas, encontros, apresentações e atividades profissionais.

O psicofarmacologista David Nutt, do Imperial College London, ressalta que medicamentos como pregabalina e propranolol podem apresentar perfil de risco diferente do álcool quando utilizados corretamente, mas isso não significa que sejam livres de riscos. A segurança está ligada à indicação, à dose e ao acompanhamento adequado.

Medicamento não é alternativa recreativa ao álcool

O uso inadequado da pregabalina pode provocar dependência e efeitos graves, especialmente quando há consumo em doses diferentes das prescritas ou associação com outras substâncias. O risco aumenta quando o produto é adquirido no mercado ilegal.

Profissionais de saúde também alertam para sinais como aumento progressivo do consumo, busca pelo efeito eufórico, necessidade de utilizar a substância para realizar atividades cotidianas e dificuldade para interromper o uso.

Por isso, a existência de uma indicação médica para determinado medicamento não significa que ele seja seguro para consumo recreativo. Pregabalina, propranolol e outros fármacos devem ser utilizados para as finalidades indicadas e com orientação profissional, e não como substitutos do álcool para conseguir relaxamento ou desinibição social.

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