Ciência e Tecnologia • 18:29h • 18 de maio de 2026
IA cria geração de “especialistas sem formação” e acende alerta sobre falsas competências
Especialista afirma que ferramentas conseguem entregar resultados com aparência profissional, mas não substituem conhecimento técnico, julgamento crítico e responsabilidade sobre decisões
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Gueratto Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
A inteligência artificial generativa vem transformando rapidamente a forma como brasileiros trabalham, produzem conteúdo e tomam decisões profissionais. Com ferramentas capazes de criar contratos, análises financeiras, campanhas publicitárias, apresentações e traduções em poucos minutos, cresce também um novo debate: até que ponto a facilidade de produzir resultados com aparência profissional pode gerar uma falsa sensação de competência?
Dados recentes mostram a dimensão desse avanço. Hoje, quase 30 milhões de trabalhadores brasileiros atuam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa, o equivalente a 29,6% da população ocupada do país. Dentro desse grupo, cerca de 5,2 milhões estão em áreas consideradas de alta exposição à tecnologia.
O movimento também já impacta o ambiente empresarial. Segundo levantamentos do setor, 63% das médias e grandes empresas utilizam inteligência artificial em seus negócios. Entre micro e pequenas empresas, o percentual chega a 46%, enquanto entre MEIs atinge 42%.
A principal mudança ocorre justamente na redução da barreira técnica para executar tarefas complexas. Pessoas sem formação jurídica conseguem estruturar contratos, usuários sem experiência financeira produzem análises de investimentos e profissionais sem fluência criam traduções técnicas com apoio da IA.
Para Celso Camilo, professor de Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás, o avanço representa uma democratização importante do acesso à produção técnica, mas também exige cautela. “A inteligência artificial está empoderando os leigos com resultados de especialistas. Isso é um avanço significativo na aceleração e democratização de resultados. Mas existe uma diferença entre gerar uma resposta e compreender se ela está correta, segura e adequada ao contexto”, afirma.
Segundo ele, o principal risco está justamente na incapacidade de avaliar criticamente aquilo que a própria IA entrega. “O leigo pode conseguir montar um contrato, mas talvez não perceba uma cláusula abusiva. Pode pedir uma análise de investimento, mas pode não entender o risco da decisão. Pode pedir um diagnóstico, mas pode não saber das questões sistêmicas envolvidas na patologia”, explica.
Especialistas perdem exclusividade da execução, mas ganham novo papel
O avanço das ferramentas também começa a alterar o valor do trabalho especializado em diferentes setores. Durante décadas, o diferencial dos profissionais estava concentrado na capacidade técnica de executar tarefas complexas. Agora, parte dessa distância foi reduzida por sistemas que escrevem, traduzem, programam, editam imagens e organizam documentos automaticamente.
Isso não elimina o papel dos especialistas, mas muda o centro da disputa profissional. Atividades intermediárias, como produção de textos simples, apresentações, peças visuais, análises preliminares e contratos padronizados, passaram a exigir menos barreiras de entrada.
Nesse novo cenário, o diferencial tende a migrar da execução operacional para a curadoria, interpretação estratégica e responsabilidade sobre as decisões finais. “O grande desafio não é a IA fazer mais, mas o ser humano saber mais para supervisionar, confiar e questionar”, reforça Celso Camilo.
Risco está em terceirizar o pensamento para a máquina
Especialistas alertam que o debate tende a crescer ainda mais nos próximos anos, principalmente com o avanço da IA sobre áreas mais sensíveis, como saúde, direito, finanças e educação. No Brasil, a discussão ganha peso adicional porque a adoção ocorre de forma desigual entre grandes empresas, pequenos negócios, trabalhadores autônomos e profissionais em início de carreira.
Segundo Celso Camilo, o futuro do trabalho não será definido apenas pelo uso da IA, mas pela capacidade de utilizá-la com senso crítico. “O futuro do trabalho não será dividido entre quem usa IA e quem não usa. A divisão será entre quem sabe usar IA com critério e quem apenas terceiriza o pensamento para uma máquina”, afirma.
Para o pesquisador, o maior risco está em confundir acesso à tecnologia com domínio técnico real. “A IA deve ampliar a capacidade humana, não criar uma geração de pessoas que tomam decisões bonitas por fora e frágeis por dentro”, conclui.
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