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Ciência e Tecnologia • 16:39h • 02 de março de 2026

IA analisa voz para identificar doenças e abre nova fronteira na saúde

Especialistas afirmam que a tecnologia é promissora para auxiliar no diagnóstico e no acompanhamento de doenças, mas ressaltam que a análise precisa do olhar clínico do fonoaudiólogo

Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1

Entretanto, ainda não existe nenhum programa oficialmente validado que permita diagnosticar uma doença apenas pela voz
Entretanto, ainda não existe nenhum programa oficialmente validado que permita diagnosticar uma doença apenas pela voz

A possibilidade de identificar doenças por meio da voz é uma das novas aplicações da inteligência artificial na área da saúde. A proposta é utilizar sistemas capazes de analisar características acústicas da fala para detectar padrões associados a determinadas condições clínicas. Apesar do potencial inovador, especialistas ressaltam que a tecnologia ainda está em desenvolvimento e precisa ser utilizada com responsabilidade e supervisão profissional.

De acordo com Lilian Aguiar Ricz, coordenadora do Laboratório de Investigação da Voz e da Fala do curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, o fonoaudiólogo é o especialista capacitado para analisar a voz com finalidade clínica. “Esse profissional possui conhecimento técnico e experiência para relacionar alterações vocais à fisiopatologia da laringe e distinguir sinais de doença de variações causadas por fatores emocionais.”

A voz humana é resultado da interação entre sistemas cerebrais ligados à emoção e circuitos motores responsáveis pela produção vocal. Por isso, ela pode refletir tanto estados emocionais, como tristeza, raiva ou desânimo, quanto alterações orgânicas. O ouvido treinado do especialista é considerado altamente confiável na identificação de padrões patológicos e continua sendo referência na avaliação clínica da voz.

Biomarcadores vocais

As pesquisas atuais buscam identificar os chamados biomarcadores vocais, ou seja, padrões acústicos que possam estar associados a doenças como problemas cardiovasculares, diabetes, menopausa e transtornos mentais. A expectativa é que, no futuro, esses marcadores contribuam para o diagnóstico precoce, o acompanhamento de doenças crônicas e a redução de custos no sistema de saúde.

Entretanto, ainda não existe nenhum programa oficialmente validado que permita diagnosticar uma doença apenas pela voz. “Um dos principais desafios da inteligência artificial é diferenciar alterações provocadas por emoções daquelas relacionadas a patologias. Um resultado equivocado pode gerar falso positivo e causar impactos psicológicos e sociais ao paciente”, destaca a especialista.

Além disso, a coleta da voz exige rigor técnico. É fundamental que a gravação seja feita em ambiente acusticamente controlado, com baixos níveis de ruído, equipamentos adequados e protocolos padronizados. A qualidade do armazenamento também é essencial para garantir análises fidedignas.

Especialistas reforçam que o diagnóstico médico não se baseia em um único indicador. A voz pode oferecer sinais importantes, mas deve ser considerada parte de um conjunto de informações clínicas, exames físicos e complementares. Nesse contexto, a inteligência artificial surge como ferramenta auxiliar, capaz de apoiar o profissional de saúde, mas não de substituí-lo.

A detecção de doenças por meio da voz é, portanto, uma área promissora, que combina tecnologia e conhecimento clínico. Para que seus benefícios se consolidem, será necessário avançar nas pesquisas, validar cientificamente os biomarcadores vocais e manter o compromisso ético com a segurança dos pacientes.

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