Mundo • 11:26h • 19 de maio de 2026
Fim da escala 6x1: pesquisadora rebate 'terrorismo' contra redução da jornada
Em entrevista ao ContrafCast, pesquisadora do Cesit/Unicamp afirma que previsões de desemprego, inflação e fechamento de empresas repetem discurso usado historicamente contra direitos trabalhistas
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações da CUT | Foto: Letycia Bond, Agência Brasil
Sempre que trabalhadores conquistam ou reivindicam novos direitos, surgem previsões de fechamento de empresas, aumento do desemprego, inflação e crise econômica. Segundo a pesquisadora Marilane Teixeira, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas, esse tipo de argumento voltou a aparecer no debate sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho sem corte salarial.
Em entrevista ao ContrafCast, da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, a economista afirmou que parte do setor empresarial utiliza um discurso de ameaça econômica sempre que mudanças trabalhistas entram em discussão.
Segundo ela, previsões de demissões em massa, aumento de custos e fechamento de negócios repetem uma narrativa histórica usada em diferentes momentos da legislação trabalhista brasileira.
Argumentos semelhantes já apareceram em outras conquistas trabalhistas
A pesquisadora lembra que reações parecidas ocorreram quando foram criados direitos como férias remuneradas, 13º salário e políticas de valorização do salário mínimo.
Na década de 1920, por exemplo, empresários alegavam que não conseguiriam manter seus negócios caso fossem obrigados a conceder férias remuneradas aos trabalhadores. O mesmo ocorreu durante os debates sobre o 13º salário, nos anos 1960, quando setores econômicos apontavam possíveis impactos negativos para a economia.
Segundo Marilane, previsões de inflação elevada, desemprego e aumento da informalidade também foram feitas durante a política de valorização do salário mínimo, mas esses efeitos não se confirmaram da forma anunciada.
Para ela, esse tipo de posicionamento faz parte de uma disputa histórica em torno das relações de trabalho e costuma surgir sempre que há propostas de ampliação de direitos sociais.
Pesquisadora questiona modelo baseado em longas jornadas
Marilane Teixeira também criticou o argumento de que o Brasil precisaria manter jornadas extensas devido à baixa produtividade da economia.
Na avaliação dela, o próprio modelo atual, marcado por excesso de trabalho e sobrecarga, demonstra sinais de esgotamento. A economista questiona se jornadas longas realmente contribuem para aumentar produtividade ou se seria necessário reorganizar a forma de trabalho.
Redução da jornada não significaria recessão, afirma especialista
Outro ponto frequentemente levantado por setores empresariais é a possibilidade de queda do Produto Interno Bruto (PIB) caso a jornada seja reduzida.
Durante a entrevista, foi citado um estudo encomendado pela Confederação Nacional da Indústria que projeta impactos negativos sobre a economia. Marilane, no entanto, considera inadequada a comparação entre a redução da jornada e a recessão econômica enfrentada pelo país em 2015 e 2016.
Segundo ela, a crise daquele período esteve ligada à retração de investimentos e desaceleração econômica, fatores diferentes da proposta atual de redução da carga horária.
A pesquisadora argumenta que, com manutenção dos salários, a renda das famílias e o consumo continuariam circulando normalmente na economia.
Experiências internacionais são usadas como exemplo
Ao defender mudanças na jornada de trabalho, Marilane citou experiências internacionais, especialmente a do Chile, que reduziu a carga horária sem registrar queda significativa no emprego, na renda ou no crescimento econômico.
Segundo ela, diferentes países demonstraram que jornadas menores podem coexistir com produtividade e expansão econômica, contrariando previsões alarmistas feitas por parte do setor empresarial.
Sobrecarga de trabalho preocupa especialistas
Além da discussão econômica, a pesquisadora destacou os impactos das longas jornadas sobre a saúde da população trabalhadora.
Ela afirmou que o aumento de casos de adoecimento mental e afastamentos relacionados ao trabalho demonstra os efeitos da sobrecarga e do estresse contínuo. Segundo a economista, quase 600 mil pessoas foram afastadas no último ano por doenças ligadas ao sofrimento psíquico e problemas associados ao ambiente de trabalho.
Na avaliação dela, a discussão sobre redução da jornada também envolve saúde pública, qualidade de vida e reorganização das relações de trabalho no país.
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