Política • 09:43h • 21 de agosto de 2026
Fé entra na escolha eleitoral: 81% consideram fundamental que candidato acredite em Deus
Pesquisa inédita da UFF identifica diferenças conforme a renda e mostra que valorização da crença religiosa não se traduz no mesmo nível de confiança nas igrejas
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da EBC | Foto: Arquivo/Âncora1
A crença em Deus aparece como um fator considerado fundamental na escolha de candidatos por 81% dos brasileiros, segundo levantamento inédito do Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), da Universidade Federal Fluminense (UFF). Os dados, apresentados na quarta-feira (19) durante congresso realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revelam ainda diferenças expressivas conforme a renda e ajudam a dimensionar a presença da religião nas percepções da população sobre política e sociedade.
Entre as pessoas com rendimento de até um salário mínimo, 89% consideram fundamental que seus candidatos acreditem em Deus. No grupo que recebe de 10 a 20 salários mínimos mensais, o percentual cai para 57%, uma diferença de 32 pontos percentuais entre os dois recortes de renda.
A pesquisa também investigou percepções que ultrapassam diretamente o processo eleitoral. Para 74% dos entrevistados, Deus faz as pessoas serem melhores, índice que sobe para 86% entre aqueles com renda de até um salário mínimo. Outros 82% defendem que as escolas devem ensinar crianças e adolescentes a acreditar em Deus.
Valorização da fé não acompanha confiança nas igrejas
Apesar da presença expressiva da crença nas respostas, os níveis de confiança nas instituições religiosas são menores. A Igreja Católica aparece como a instituição religiosa de maior credibilidade entre os entrevistados, mencionada por 56%. As igrejas protestantes registram 51% e os centros kardecistas, 19%.
A socióloga Christina Vital, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFF, chamou atenção justamente para esse contraste. Segundo ela, a valorização de Deus identificada pelo levantamento não se converte automaticamente em maior confiança nas instituições religiosas que fazem parte do cotidiano da população.
Outro resultado envolve a relação entre religião e poder público. Segundo o estudo, 54% da amostra defende que o Estado não seja laico. Christina avalia que existe confusão entre os entrevistados sobre o próprio significado da laicidade e sua relação com a separação entre religião e Estado.
Pesquisadores analisam relação entre religião e política
Os resultados também foram discutidos por pesquisadores durante o 1º Congresso Internacional e Multidisciplinar sobre Sociedade: religião, política e valores. Michel Gherman, que lidera o Observatório das Crises das Democracias das Américas (UNLP) da UFRJ, relacionou parte do fenômeno à apropriação de valores religiosos por movimentos de extrema direita.
Na avaliação apresentada pelo pesquisador, não teria sido simplesmente o crescimento do cristianismo protestante que fortaleceu esses movimentos políticos. Ele argumenta que determinados valores e percepções religiosas foram incorporados a discursos políticos associados à ideia de recuperação de uma ordem existente no passado.
Christina Vital também apontou a presença de uma percepção de perda de valores ou referências do passado, sentimento que, segundo ela, atravessa diferentes grupos sociais e não possui uma única expressão política.
Religião continua presente no comportamento eleitoral
O cientista político Lucio Rennó, da Universidade de Brasília (UnB), destacou durante o debate a existência de uma relação estatística entre ser evangélico e votar em candidatos de extrema direita. Para o pesquisador, parte desse comportamento está associada à identificação dos eleitores com representantes que consideram semelhantes a si próprios.
Os diferentes resultados apresentados pelo levantamento mostram que fé, instituições religiosas e comportamento político não aparecem necessariamente da mesma maneira entre os entrevistados. Ao mesmo tempo em que 81% consideram fundamental que um candidato acredite em Deus, os percentuais de confiança nas principais instituições religiosas ficam abaixo desse patamar.
A diferença por renda também se destaca entre os resultados: a importância atribuída à crença em Deus na escolha eleitoral passa de 89% entre os entrevistados de menor renda para 57% entre aqueles que recebem de 10 a 20 salários mínimos.
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