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Responsabilidade Social • 15:49h • 16 de janeiro de 2026

Estudo da Unesp revela que passado da paisagem define a saúde atual de rios e riachos

Estudo mostra que mudanças no uso da terra deixam efeitos retardados nos cursos d’água, compreender essa “memória ecológica” é chave para restaurar a biodiversidade

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Unesp | Foto: Divulgação

Reconhecer marcas do passado dos rios é decisivo para orientar ações de conservação, aponta pesquisa da Unesp
Reconhecer marcas do passado dos rios é decisivo para orientar ações de conservação, aponta pesquisa da Unesp

Alterações no uso da terra podem impactar rios e riachos de forma silenciosa e duradoura, com efeitos que só se tornam visíveis anos depois. É o que revela uma pesquisa desenvolvida por cientistas da Universidade Estadual Paulista, que destaca a importância de compreender o histórico das paisagens para planejar ações eficazes de conservação e recuperação ambiental de ecossistemas de água doce.

Apesar de a água doce cobrir menos de 1% da superfície do planeta, rios, riachos, lagos e pântanos abrigam cerca de 10% de todas as espécies animais conhecidas. Entre os principais protagonistas desses ambientes estão os insetos aquáticos, com mais de 200 mil espécies descritas, que podem representar até 80% da diversidade animal nesses ecossistemas.

Além de sua relevância ecológica, esses organismos têm papel estratégico na ciência ambiental. “Como existe uma grande diversidade de insetos aquáticos, alguns são mais tolerantes a alterações ambientais, enquanto outros são extremamente sensíveis”, explica Tadeu Siqueira, docente do Instituto de Biociências da Unesp, câmpus de Rio Claro, e pesquisador principal do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima). “Isso nos permite utilizá-los como bioindicadores para avaliar a saúde dos cursos d’água”, afirma.

O pesquisador se dedica há anos ao estudo da ecologia de ecossistemas aquáticos de água doce. Em um trabalho recente, integrou uma equipe que buscou entender como o passado de uma paisagem influencia diretamente a biodiversidade observada hoje em rios e riachos tropicais.


O estudo analisou três décadas de transformações na bacia do rio Corumbataí, no interior paulista, que reúne 101 riachos. Os resultados foram publicados no artigo The ecological memory of landscape complexity shapes diversity of freshwater communities, que investiga como mudanças históricas no uso do solo criam uma espécie de “memória ecológica” nos ecossistemas aquáticos.

Para isso, os pesquisadores coletaram e analisaram insetos aquáticos reconhecidos como bioindicadores, avaliando como diferentes padrões de ocupação do solo ao longo do tempo afetaram a qualidade ambiental dos cursos d’água. Um dos avanços centrais do trabalho foi o desenvolvimento de um novo método estatístico capaz de identificar em que momentos do passado as alterações na paisagem foram mais críticas para a biodiversidade atual.

Um dos achados que mais chamaram a atenção da equipe foi que a composição do uso da terra, ou seja, a proporção de áreas ocupadas por diferentes tipos de cobertura, como agricultura ou vegetação nativa, tem maior influência sobre a biodiversidade dos rios do que a localização dessas áreas. Em termos práticos, a extensão total de uma plantação de cana ou de uma área florestal pesa mais para a saúde dos riachos do que o fato de essas áreas estarem próximas às margens ou às nascentes.

Segundo os pesquisadores, os resultados reforçam que estratégias de conservação precisam considerar o histórico de ocupação do território. “Entender o passado é fundamental para planejar o futuro desses ecossistemas”, resume Siqueira. “Sem esse olhar histórico, ações de restauração podem ser menos eficazes ou até equivocadas.”

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