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Saúde • 09:03h • 19 de dezembro de 2025

Estudo da Fiocruz revela quem tem maior risco de morrer por dengue no Brasil

Pesquisa inédita mostra que desigualdades sociais, raciais e econômicas pesam diretamente na letalidade da dengue, com impacto maior sobre a população negra e de baixa renda

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações da Fiocruz | Foto: Arquivo Âncora1

Os achados demonstram que os grupos marcados por vulnerabilidade social são os que concentram mais chances de óbito por dengue.
Os achados demonstram que os grupos marcados por vulnerabilidade social são os que concentram mais chances de óbito por dengue.

Quem são as pessoas que têm mais chances de morrer por dengue no Brasil? Essa foi a pergunta que motivou um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), publicado na revista Plos Neglected Tropical Medicine. Embora já se saiba que populações em situação de vulnerabilidade enfrentam maior risco de adoecer e morrer pela doença, a pesquisa revela que esse quadro se agrava quando fatores como raça e baixa renda se sobrepõem, evidenciando desigualdades sociais em saúde.

Diante da escassez de estudos que relacionassem diretamente raça e etnia à morte após a infecção por dengue, a pesquisadora Luciana Cardim decidiu aprofundar a análise. Para ela, raça e etnia fazem parte de uma estrutura social mais ampla, que impacta o acesso aos serviços de saúde, a qualidade do atendimento, além de aspectos como educação, emprego e moradia. “Esses determinantes, quando desiguais, podem atrasar o diagnóstico, dificultar o manejo adequado dos casos graves e aumentar as chances de óbito após a infecção por dengue”, explica Cardim, líder do estudo e pesquisadora associada ao Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia).

A investigação analisou mais de 3 milhões de casos de dengue registrados entre 2007 e 2018 na Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, com foco especial em pessoas de baixa renda inscritas no Cadastro Único (CadÚnico). Os dados socioeconômicos foram cruzados com registros da doença e de óbitos, permitindo inclusive identificar mortes por dengue que não constavam no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), o que resultou em estimativas de letalidade mais precisas.

Achados pesam sobre a população negra

Os resultados mostram que a maior probabilidade de morte por dengue se concentra em grupos socialmente vulneráveis. O risco é mais elevado entre homens, pessoas negras, moradores da região Nordeste, indivíduos com baixa ou nenhuma escolaridade, pessoas com 60 anos ou mais, aposentados ou pensionistas, além de famílias em condições precárias de moradia e infraestrutura. Em termos numéricos, pessoas negras apresentam cerca de duas vezes mais chances de morrer nos primeiros 15 dias após o início dos sintomas, em comparação com pessoas brancas.

“Na prática, os dados indicam que a letalidade da dengue no Brasil está profundamente ligada às desigualdades sociais. Quem vive em maior vulnerabilidade tem menos chance de acessar o cuidado adequado no tempo certo, o que aumenta o risco de morte nos primeiros dias da doença”, destaca Cardim. Segundo ela, muitos óbitos estão associados ao atraso na busca por atendimento, à dificuldade de acesso aos serviços de saúde e a falhas no manejo oportuno dos casos graves.

Dificuldades no registro de óbitos

O estudo também chama atenção para os desafios na identificação correta das mortes por dengue. Em populações vulneráveis, é comum que as declarações de óbito tragam causas mal definidas ou apontem comorbidades como causa principal, mesmo quando a infecção por dengue agravou o quadro clínico. “Isso sugere que a mortalidade por dengue pode estar subestimada no país”, alerta a pesquisadora, que defende a capacitação de profissionais de saúde para o correto preenchimento da Declaração de Óbito e o fortalecimento da vigilância epidemiológica.

Políticas públicas e redução das desigualdades

Entre as recomendações, o estudo destaca a necessidade de políticas públicas que atuem tanto na prevenção da dengue quanto na melhoria da assistência à saúde das populações mais vulneráveis. No campo da prevenção, os autores reforçam a importância do controle do mosquito Aedes aegypti em áreas com maior desigualdade social. Já na assistência, apontam a ampliação e qualificação da Atenção Primária à Saúde para o reconhecimento precoce dos sinais de gravidade, além da garantia de atendimento rápido e adequado nos demais níveis do sistema, já que a hidratação oportuna é fundamental no tratamento da dengue grave.



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