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Responsabilidade Social • 09:23h • 14 de março de 2026

Efeitos da emergência climática no oceano preocupam pesquisadores

Encontro no Rio discute Tratado do Alto-Mar e proteção marinha

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1

Problemas como aquecimento, perda de oxigênio, poluição e acidificação são destacados.
Problemas como aquecimento, perda de oxigênio, poluição e acidificação são destacados.

O oceano tem acumulado diversos efeitos da emergência climática. Entre os impactos observados estão o aquecimento anormal das águas, o branqueamento em massa de corais, o deslocamento de espécies polares, a redução na reprodução de peixes e alterações nos padrões das correntes marítimas.

Especialistas reunidos no Rio de Janeiro alertam para a necessidade urgente de ampliar medidas de proteção desse ecossistema, com atenção especial às águas internacionais, que representam cerca de dois terços do oceano e não estão sob a jurisdição de nenhum país.

O tema é discutido no 3º Simpósio BBNJ — sigla em inglês para Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional — realizado entre os dias 10 e 12 de março. O encontro reuniu cientistas, representantes de governos, organismos internacionais e organizações da sociedade civil para debater a implementação do Tratado do Alto-Mar, que entrou em vigor em janeiro deste ano.

O acordo já foi ratificado por 86 países, entre eles o Brasil, e estabelece bases para a proteção da biodiversidade marinha em águas internacionais. O tratado também trata da cooperação científica, da troca de tecnologias relacionadas ao mar, da criação de mecanismos de governança e do acesso a recursos genéticos marinhos.

O documento menciona sete vezes as mudanças climáticas e reconhece a necessidade de combater a perda da biodiversidade e a degradação dos ecossistemas oceânicos. Problemas como aquecimento das águas, perda de oxigênio, poluição e acidificação do oceano são apontados como ameaças que exigem atenção global. O tratado também prevê a identificação e proteção de áreas marinhas consideradas vulneráveis.

Segundo o diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), Segen Farid Estefen, o acordo representa um avanço ao colocar o oceano no centro das discussões sobre clima. Ele destaca que, embora existam instituições internacionais dedicadas ao estudo das mudanças climáticas, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), os relatórios ainda abordam o oceano de forma limitada.

Especialistas também chamam atenção para os impactos sociais e econômicos do aquecimento global nos mares. A professora de Oceanografia Física e Clima da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Regina Rodrigues, destacou que a elevação do nível do mar ameaça mais de um bilhão de pessoas que vivem em áreas costeiras de baixa altitude.

Além disso, cerca de três bilhões de pessoas dependem de frutos do mar como principal fonte de proteína. Nesse contexto, a redução na reprodução de peixes pode representar um risco para a segurança alimentar em diversas regiões do planeta.

A pesquisadora também alerta para a possibilidade de deslocamentos populacionais provocados pelas mudanças climáticas e para o aumento do risco de conflitos em regiões que dependem fortemente do oceano, como áreas do Pacífico, da Baía de Bengala e da África Ocidental.

Para ela, é necessário fortalecer a integração entre o Tratado do Alto-Mar e a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). Atualmente, esses acordos internacionais funcionam de forma paralela, o que pode limitar a efetividade das ações.

Regina Rodrigues defende ainda que os sistemas de governança internacional precisam acompanhar a velocidade e a dimensão dos impactos climáticos, que ultrapassam fronteiras. Segundo ela, as políticas públicas devem ser adaptáveis e guiadas pelo princípio da precaução.

Outro tema debatido no simpósio é o impacto do aquecimento global sobre a pesca. O pesquisador brasileiro Juliano Palacios Abrantes, do Instituto para os Oceanos e Pescas da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, destaca que as mudanças no clima já afetam a distribuição de diversas espécies.

Segundo ele, pesquisas recentes indicam que muitos estoques de peixes tropicais estão migrando das zonas econômicas exclusivas dos países para áreas de alto-mar. Esse deslocamento pode gerar disputas internacionais, como já ocorreu na Europa em conflitos relacionados à pesca da cavala.

Abrantes também aponta que alguns estoques podem migrar para regiões onde não existem acordos de gestão ou proteção. Nesse cenário, a exploração pesqueira pode aumentar desigualdades, já que apenas um número restrito de países, geralmente mais ricos, possui capacidade tecnológica e financeira para pescar em águas internacionais.

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