Variedades • 08:00h • 15 de fevereiro de 2026
Editorial | Quando a barbárie encontra aplauso digital e é validada nas redes sociais
Em meio a um crime que tirou a vida de duas crianças, parte da sociedade optou por julgar a intimidade da mãe, relativizar o agressor e transformar dor em espetáculo público
Da Redação | Foto: Arquivo/Âncora1
No último dia 11 de fevereiro, uma tragédia atravessou a semana e deixou uma cidade inteira em choque. Um pai, de 40 anos, atirou contra os dois filhos, de 12 e 8 anos, e depois tirou a própria vida. O menino mais velho morreu ainda no hospital. O mais novo resistiu por alguns dias, mas teve a morte confirmada no sábado, dia 14. O caso envolve uma família conhecida no município de Goiás, em Itumbiara, com cerca de 112 mil habitantes, o que ampliou a repercussão e, infelizmente, também ampliou o espetáculo em torno da dor.
Este editorial não citará nomes. Não é necessário. O que importa aqui não é a curiosidade pública, é a responsabilidade pública.
O que aconteceu é um crime brutal. Não há adjetivo suficiente, não há contexto que suavize e não há circunstância que atenue. Um homem decidiu tirar a vida dos próprios filhos. Crianças, inocentes, indefesas. Nada, absolutamente nada, pode ser colocado ao lado dessa decisão como tentativa de explicação moral.
Nos dias seguintes, vieram as cartas, as acusações, as versões. Uma suposta traição, um relacionamento novo, um processo de separação já em andamento, segundo familiares. Recortes de uma vida íntima expostos nas redes sociais; vídeos e imagens que jamais deveriam circular, espalhados como munição para alimentar narrativas cruéis. A internet se transformou em tribunal, e a vítima passou a ser julgada como ré.
É aqui que a tragédia ganha outra camada igualmente perturbadora.
Não cabe à sociedade investigar a intimidade de um casal. Não cabe a desconhecidos analisar fragmentos de vídeos e transformar suposições em sentenças. Não cabe a ninguém relativizar um duplo homicídio com base em conjecturas sobre a vida conjugal alheia. Mesmo que houvesse traição, mesmo que houvesse conflitos, mesmo que houvesse dor, nada disso transforma assassinato em reação compreensível.
Quando alguém tenta justificar o injustificável, revela mais sobre si do que sobre o caso.
Há um dado que precisa ser enfrentado com firmeza: culpar a mulher pela violência cometida pelo homem é uma distorção moral grave. Transferir responsabilidade é um mecanismo antigo. Ele aparece em discursos que minimizam agressões, que questionam comportamentos femininos, que sugerem que determinadas atitudes “provocam” determinadas reações. Não provocam. A decisão de matar foi dele, o gatilho foi dele, a escolha foi dele.
As crianças não eram parte de um conflito conjugal. Não eram extensão de um ressentimento. Não eram instrumento de vingança. Eram filhos.
Outro ponto não pode ser ignorado: a circulação de imagens íntimas, captadas por terceiros e espalhadas em redes sociais, afronta princípios básicos de dignidade e também a própria legislação brasileira, como a Lei Geral de Proteção de Dados. Compartilhar esse tipo de conteúdo não é curiosidade, é violação. Não é opinião, é exposição indevida. Cada clique, cada repostagem, cada comentário ofensivo aprofunda a violência.
É preciso dizer com clareza: há uma diferença entre informar e explorar. Entre analisar e atacar. Entre discutir e linchar.
Nos velórios, segundo relatos publicados por veículos de credibilidade, a mãe foi insultada. Em um dos momentos mais devastadores que alguém pode viver, além de enterrar os filhos, precisou suportar ofensas. Esse comportamento não é indignação moral, é desumanização.
Uma sociedade que começa a discutir se um pai teria “motivos” para matar os filhos está perigosamente deslocando seu eixo ético. A frustração amorosa, a separação, a suspeita, a dor emocional, nada disso autoriza violência. Adultos enfrentam conflitos; adultos se separam; adultos procuram ajuda. O que não se admite é transformar filhos em alvo de uma ruptura.
Há muitas camadas neste caso: saúde mental, cultura de posse, incapacidade de lidar com frustrações, misoginia estrutural, exposição digital sem limites. Todas merecem reflexão. Mas nenhuma delas pode servir como escudo narrativo para suavizar o ato central: duas crianças perderam a vida por decisão de quem deveria protegê-las.
Este editorial não é movido por curiosidade, é movido por responsabilidade. É um posicionamento objetivo: não há relativização possível. Não há equilíbrio entre versões quando se trata de assassinato de crianças. Há um crime. E há vítimas.
Que a Justiça investigue, que as autoridades apurem, que eventuais crimes digitais sejam responsabilizados. Mas, sobretudo, que a sociedade faça um exercício urgente de consciência. Antes de comentar, antes de compartilhar, antes de acusar, é preciso lembrar que por trás de cada caso existem pessoas reais, dores reais e consequências permanentes.
O mínimo que se espera é humanidade.
À mãe que ficou, à família devastada, às crianças que não tiveram escolha, fica o respeito. E à sociedade, fica a pergunta que precisa ecoar além do sensacionalismo: em que momento passamos a procurar justificativas para aquilo que jamais deveria ser tolerado?
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