Mundo • 17:29h • 21 de fevereiro de 2026
Divórcio no Brasil vira trauma prolongado e expõe falhas estruturais do sistema
Judicialização excessiva e baixa taxa de acordos transformam separações em processos longos e emocionalmente desgastantes
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Mention | Foto: Arquivo/Âncora1
O divórcio no Brasil tem deixado de ser apenas uma ruptura conjugal para se tornar, em muitos casos, um processo prolongado de desgaste emocional, financeiro e institucional. A avaliação é de Dora Awad, CEO da Os Nossos, aplicativo de gestão da vida familiar voltado a contextos de guarda compartilhada, divórcios e partilha de responsabilidades.
Segundo dados do relatório Justiça em Números 2025, do Conselho Nacional de Justiça, processos de família representam mais de 60% das ações em tramitação em diversos tribunais estaduais. Em estados como São Paulo e Minas Gerais, os fóruns acumulam centenas de milhares de casos envolvendo guarda, pensão alimentícia, visitas e partilha.
Apesar da ampliação de centros de conciliação, o índice de acordos em processos familiares caiu de 12,3% em 2023 para 10,4% em 2024. Isso significa que a maioria dos conflitos continua se arrastando no Judiciário, ampliando a insegurança emocional de pais, mães e filhos.
Para Dora Awad, o problema está na forma como o sistema encara a separação. Ela afirma que o divórcio é tratado quase exclusivamente como questão jurídica, quando envolve dimensões emocionais, financeiras e práticas que exigiriam abordagem multidisciplinar. Na ausência de mediação adequada, decisões sobre guarda e convivência tendem a se transformar em disputas prolongadas, com impacto direto sobre crianças e adolescentes.
Embora advogados, juízes e promotores atuem dentro de suas competências legais, o modelo predominante mantém o conflito como eixo central. A consequência é o aumento do desgaste emocional e a dificuldade de reorganização familiar após o fim do casamento.
Em outros países, métodos consensuais como mediação familiar, negociação assistida e práticas colaborativas têm sido adotados para reduzir o confronto e acelerar acordos. No Brasil, essas alternativas ainda têm alcance limitado e pouca divulgação.
A falta de políticas públicas estruturadas sobre o tema reforça a tendência de judicialização como primeira opção. O resultado é um ciclo de atrasos, aumento de custos e intensificação do impacto emocional.
Dora Awad defende que o divórcio seja tratado como questão de saúde social. Para ela, ampliar o acesso à mediação, investir em educação sobre direitos e incentivar práticas consensuais são medidas capazes de reduzir conflitos e proteger o bem-estar dos filhos.
O debate ganha relevância diante do volume crescente de processos e da necessidade de soluções que priorizem reorganização familiar, em vez de confronto. Transformar o divórcio em processo mais estruturado e menos traumático passa por mudança cultural e institucional.
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