Educação • 14:10h • 29 de janeiro de 2026
Da escola ao celular: por que o cyberbullying cresce com a volta às aulas
Pesquisa nacional do ChildFund mostra que conflitos escolares migram para redes sociais e jogos on-line, ampliando riscos à saúde mental no início do ano letivo
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da DePropósito Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
Com a retomada das aulas, o ambiente escolar volta a ser um espaço central de convivência, aprendizado e socialização. Mas, junto com o retorno às salas, cresce também um fenômeno que extrapola os muros da escola e se intensifica no ambiente digital, o cyberbullying. Ataques virtuais, humilhações recorrentes e exposições em redes sociais, aplicativos de mensagens e jogos on-line têm ampliado conflitos iniciados no cotidiano escolar, afetando diretamente a saúde emocional de crianças e adolescentes.
O alerta é reforçado por dados do estudo Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet, realizado pelo ChildFund, que ouviu 8.436 adolescentes de 13 a 18 anos, de escolas públicas e privadas, em todas as regiões do país. A pesquisa aponta que o ambiente on-line é percebido como um território de insegurança, com forte presença de bullying e outras formas de violência digital.
Segundo Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund, o cyberbullying potencializa os danos do bullying tradicional, especialmente em crianças e adolescentes, que ainda não possuem maturidade emocional plena para lidar com agressões constantes. Entre os sinais mais frequentes estão mudanças bruscas de humor, ansiedade, crises de pânico, tristeza persistente, irritabilidade, perda de apetite e isolamento social.
Meninas relatam mais insegurança no ambiente digital
Os dados revelam diferenças importantes na forma como meninas e meninos percebem a segurança on-line. O sentimento de insegurança é relatado por 21% das meninas, contra 10% dos meninos. Nos grupos focais realizados durante a pesquisa, foram registradas sete menções diretas a situações de bullying feitas por meninas e três por meninos, indicando que elas podem sofrer cerca de 2,3 vezes mais ameaças desse tipo.
Os relatos envolvem xingamentos, comentários maldosos, exposição da aparência física, assédio e exclusões em grupos virtuais. Em muitos casos, situações iniciadas no ambiente escolar ganham maior alcance quando migram para o espaço digital, onde a exposição é ampliada e a agressão pode ocorrer a qualquer hora.
Redes sociais e jogos aparecem como ambientes de maior risco
Ao identificar os espaços digitais considerados mais inseguros, os adolescentes apontaram o Instagram como o principal ambiente de risco, concentrando 68% das menções. Em seguida aparece a plataforma de jogos on-line Roblox, com 12%. Jogos como Free Fire também foram associados a agressões verbais, enquanto o TikTok foi citado como espaço de exposição a comentários ofensivos.
Entre os relatos coletados, há casos de invasão de contas em redes sociais para envio de mensagens ofensivas e ameaças feitas por usuários desconhecidos durante partidas on-line. Esses episódios mostram como a violência digital pode assumir formas diversas e difíceis de controlar sem orientação adequada.
Diferenças entre escolas públicas e privadas
A pesquisa também identificou contrastes entre estudantes das redes pública e privada. Entre os adolescentes da rede pública, 63% afirmaram já ter sido abordados por desconhecidos on-line, além de relatarem maior exposição ao bullying e ao assédio digital. Já entre estudantes da rede privada, os dados indicam maior presença de mecanismos de proteção, como orientação familiar, controle digital e redes de apoio mais estruturadas.
Para Mauricio Cunha, a supervisão do uso da internet por pais e responsáveis ainda é limitada no Brasil. Apenas 35% dos adolescentes relataram algum tipo de acompanhamento no acesso à internet. O dado evidencia a necessidade de ampliar o diálogo dentro das famílias e fortalecer ações educativas sobre convivência e segurança no ambiente digital.
Cyberbullying é crime no Brasil
Desde 2024, o Brasil conta com um marco legal específico para o enfrentamento do bullying e do cyberbullying. A Lei nº 14.811/2024 alterou o Código Penal e estabeleceu punições para a prática de intimidação sistemática, com previsão de multa e reclusão, conforme a gravidade do caso.
Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou, em 2024, 2.935 ocorrências de bullying e cyberbullying com vítimas de 0 a 19 anos, sendo 460 classificadas como cyberbullying. Especialistas alertam que esses números representam apenas os casos formalmente registrados, indicando subnotificação significativa.
Caminhos para prevenir e enfrentar a violência digital
Com a volta às aulas, o ChildFund recomenda estratégias que envolvem escolas, famílias e responsáveis para reduzir riscos e fortalecer a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Entre as medidas estão a inclusão de módulos educativos sobre cyberbullying, orientação prática sobre privacidade e segurança nas redes sociais, uso equilibrado de ferramentas de controle parental e capacitação de adultos para lidar com os desafios da vida on-line.
A organização também disponibiliza o curso gratuito Safe Child, voltado à formação de pais e responsáveis, com foco em diálogo, prevenção e construção de ambientes digitais mais seguros. O início do ano letivo, segundo especialistas, é um momento estratégico para transformar o retorno às aulas em uma oportunidade de cuidado, escuta e proteção no mundo físico e digital.
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