Policial • 17:15h • 13 de setembro de 2026
Da cena do crime ao laboratório: o que acontece com uma evidência depois que ela é encontrada
Vestígios precisam ser fotografados, identificados, lacrados e rastreados; erros na coleta ou no transporte podem comprometer uma análise pericial
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Dampress Assessoria | Foto: Divulgação
Uma gota de sangue, uma impressão digital ou um objeto encontrado na cena de um crime não segue diretamente para uma máquina capaz de revelar o que aconteceu. Antes de chegar ao laboratório, uma evidência passa por uma sequência de procedimentos para preservar sua integridade e permitir que o material analisado seja relacionado ao vestígio originalmente encontrado.
O processo começa ainda na cena. A evidência precisa ser fotografada, documentada e identificada nas condições em que foi localizada. Depois vêm coleta, embalagem, lacre, transporte, armazenamento e, quando necessário, encaminhamento para análises específicas.
Cada movimentação também precisa ser registrada. Segundo Karine Vieira de Castro Quadros, especialista em Ciências Forenses e perita criminal, ficam documentadas informações como quem recebeu o material, para onde ele foi levado e onde permaneceu armazenado.
Um erro na coleta pode comprometer o resultado
O tipo de vestígio determina os cuidados necessários. Materiais biológicos podem sofrer degradação ou contaminação se forem armazenados inadequadamente. Objetos úmidos em embalagens impróprias podem desenvolver mofo e se deteriorar.
Também existe o risco de contaminação cruzada. Material genético ou outras substâncias podem ser transferidos indevidamente para uma evidência por problemas no uso de equipamentos de proteção, instrumentos de coleta, separação ou acondicionamento.
“Um erro na coleta ou no transporte pode prejudicar e até impedir uma análise adequada, produzindo resultados não confiáveis”, alerta Karine.
Depois de acondicionado, o material recebe informações de identificação, é lacrado e transportado. Ao chegar ao destino, embalagem e lacres são conferidos e o item é registrado. Dependendo do caso, poderá seguir para exames de DNA, toxicologia, impressões digitais ou armas de fogo, entre outras análises.
O que é a cadeia de custódia
Esse acompanhamento contínuo constitui a chamada cadeia de custódia, responsável por registrar o percurso da evidência desde sua coleta. Segundo a especialista, ela permite demonstrar que o material examinado corresponde ao encontrado na cena e que sua integridade foi preservada durante o processo.
A confiabilidade de uma perícia, portanto, não depende apenas dos equipamentos utilizados pelo laboratório. Condições da embalagem, armazenamento, reagentes, equipamentos e eventuais ocorrências durante a análise também precisam ser documentados.
“O laudo final é o resultado de uma cadeia de procedimentos. Ele não começa quando o item chega ao laboratório, começa muito antes, na cena do crime”, explica Karine.
Séries policiais criaram uma expectativa distante da realidade
Nem tudo o que é recolhido em uma investigação necessariamente será submetido a exames, assim como nem toda amostra contém material suficiente para produzir um resultado. Impressões digitais também não aparecem obrigatoriamente em uma cena nem são sempre encontradas em condições ideais.
A expectativa de que laboratórios produzam respostas praticamente instantâneas e conclusivas ficou conhecida como “efeito CSI”, referência à influência de séries e filmes policiais sobre a percepção do público a respeito da ciência forense.
Encontrar uma evidência, portanto, não significa solucionar automaticamente um crime. O resultado depende da preservação do vestígio, da documentação de seu percurso, da análise e da interpretação dentro do contexto da investigação. O papel da perícia, segundo Karine, não é fazer uma evidência confirmar uma hipótese previamente construída, mas apresentar aquilo que os vestígios efetivamente permitem concluir.
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