Variedades • 14:30h • 24 de outubro de 2026
Coluna | Provar de novo, e de novo, e de novo
Mesmo ocupando cargos de liderança e conquistando reconhecimento profissional, mulheres ainda enfrentam questionamentos sobre sua capacidade e cobranças que ultrapassam o ambiente de trabalho
Por Alessandra Lucco | Foto: Divulgação
Existe uma pergunta que eu já ouvi de muitas formas diferentes, mas que, no fundo, é sempre a mesma.
"Mas é você mesma que vai cuidar do caso?"
As vezes ela vem disfarçada de gentileza. As vezes vem acompanhada de um olhar para a pessoa ao meu lado, como se a resposta estivesse com ela. As vezes nem chega a ser dita: aparece na reunião em que a explicação técnica é dirigida a outra pessoa, no e-mail que pede para "confirmar com o responsável", na negociação em que o argumento só ganha peso quando alguém o repete com outra voz.
Tenho pensado muito nisso nas últimas semanas. E cheguei a uma constatação que me incomoda: a nossa competência ainda é questionada antes mesmo de a nossa decisão ser avaliada.
Antes. Não depois do erro, não depois do resultado. Antes.
Para quem trabalha com governança, essa frase é quase uma contradição técnica.
Organizações maduras avaliam decisões pelo processo e pelo resultado: as informações disponíveis, os riscos considerados, a coerência com a estratégia. Quando a dúvida recai sobre quem decide, e não sobre o que foi decidido, deixamos de avaliar a decisão. Passamos a julgar a pessoa.
E isso acontece em uma profissão em que as mulheres já são maioria. Os números da própria OAB mostram que somos mais da metade da advocacia brasileira há alguns anos. A presença deixou de ser rara. A legitimidade, curiosamente, ainda não.
A lei já reconheceu parte desse problema. A Lei 14.611/2023, sobre igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens, exige que empresas com cem ou mais empregados publiquem relatórios semestrais de transparência.
Entre as informações prestadas estão os critérios adotados para promoção a cargos de chefia. Gosto dessa escolha do legislador porque ela desloca a pergunta: não "essa mulher merece?", mas "quais são os critérios, e eles são aplicados igualmente?". Isso é governança. Mas nenhum relatório alcança o lugar onde essa cobrança faz mais estrago.
Porque, se eu for completamente honesta, a parte mais difícil não é a cobrança que vem de fora.
É a que vem de dentro.
Existe em nós uma instância que observa, julga e cobra, formada a partir das vozes que nos cercaram e das exigências que fomos absorvendo ao longo da vida. Ela não precisa de ninguém na sala para funcionar. E tem uma característica cruel: quanto mais tentamos satisfazê-la, mais exigente ela fica.
Reconheço essa voz. Ela não desaparece quando o cargo muda. Apenas troca de roupa. Quando eu era mais jovem, ela perguntava se eu merecia estar na sala. Hoje, como sócia e empresária, pergunta se cada decisão que tomo é boa o bastante para justificar que eu esteja à frente dela.
E há algo ainda mais desconcertante nisso. Muitas mulheres extremamente competentes, com diplomas, cargos e reconhecimento, seguem convencidas de que enganaram todo mundo e de que, a qualquer momento, serão descobertas.
As conquistas não mudam essa crença. Cada nova prova de competência é explicada como sorte, erro de avaliação ou generosidade alheia.
Ou seja: provar de novo não resolve. Nunca resolveu.
Acho que isso acontece porque grande parte do que desejamos passa pelo olhar do outro. Queremos ser vistas, reconhecidas, legitimadas. E, quando esse olhar é historicamente desconfiado, corremos o risco de passar a vida tentando convencê-lo, como se a nossa competência só existisse depois de autorizada.
Já escrevi aqui sobre a coragem de ocupar o próprio lugar, quando renegociei contratos que já não representavam a profissional que eu havia me tornado. Aquele texto falava de valor e de remuneração. Este fala de outra coisa: do que acontece depois que o lugar já foi ocupado. Porque chegar não encerra a prova. Muitas vezes, é ali que ela começa.
Tenho tentado sustentar três ideias.
A primeira: liderar é sustentar as próprias decisões. Existe uma diferença enorme entre rever uma escolha porque surgiu um argumento novo e abandoná-la porque alguém repetiu a mesma dúvida com mais firmeza. A primeira é maturidade. A segunda é aquela voz interna presidindo a reunião.
A segunda: ocupar o espaço não depende de autorização. Durante muito tempo, esperei uma permissão silenciosa (o convite, o elogio, a validação de alguém mais experiente) para me posicionar. Essa permissão raramente chega. E esperar por ela é pedir licença para estar onde já estamos.
A terceira, talvez a mais importante: autoridade não é provar que você merece estar ali. É reconhecer o valor que você entrega. Aqui, o direito e a gestão ajudam a separar duas coisas que costumamos confundir.
Poder é o que o cargo, o contrato social ou o organograma conferem. Autoridade é o que se constrói na consistência das entregas e das decisões. O poder pode ser questionado por qualquer pessoa. A autoridade, quando nasce da clareza sobre o próprio trabalho, deixa de depender de cada olhar que nos avalia.
Na prática, tenho tentado responder sem pedir desculpas pela resposta. Retomar a palavra quando uma ideia minha é atribuída a outra pessoa. Fazer o mesmo pelas outras mulheres da sala: citar o nome delas, dar crédito. E, dentro do escritório, olhar para os critérios: quem é interrompido, quem recebe as tarefas invisíveis, o que significa, de fato, "ter perfil" de liderança.
Ainda estou aprendendo. Ainda me pego preparando mais do que deveria, justificando o que não precisava de justificativa. A terapia não silenciou essa voz. Mas me ensinou a reconhecê-la, e a não deixar que ela decida por mim.
A competência não desaparece porque alguém decidiu questioná-la. Nem porque nós mesmas decidimos.
Então deixo aqui uma reflexão: quantas vezes você já sentiu que precisava provar, de novo, que merecia estar ali? E, da próxima vez que essa cobrança aparecer, você vai conseguir perceber de quem é a voz que está fazendo a pergunta?
Agora vou preparar um chá. Até a próxima xícara.
Aviso legal
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, integral ou parcial, do conteúdo textual e das imagens deste site. Para mais informações sobre licenciamento de conteúdo, entre em contato conosco.
Últimas Notícias
As mais lidas do mês
Política
Lula ou Flávio Bolsonaro? Veja onde consultar propostas, histórico e informações antes de votar
Programas de governo em PDF, registros do Senado, despesas federais e plataformas de checagem permitem comparar os candidatos à Presidência com informações oficiais e documentos públicos