Ciência e Tecnologia • 16:46h • 31 de agosto de 2026
Cobras não são apenas um “longo tubo”: cientistas descobrem nova região na coluna vertebral
Análise tridimensional identificou cinco regiões distintas no corpo das serpentes e mostrou que o pescoço ocupa apenas cerca de 5% de seu comprimento
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Monash | Foto: Divulgação
À primeira vista, o corpo de uma cobra pode parecer uma estrutura longa e relativamente uniforme ligada à cabeça. Uma análise detalhada da coluna vertebral, porém, revelou uma organização bem mais sofisticada. Pesquisadores da Universidade Monash, na Austrália, identificaram cinco regiões vertebrais distintas nas serpentes, incluindo uma até então não descrita, além de descobrirem que o pescoço desses animais é muito mais curto do que se imaginava.
Publicado no Journal of Morphology, o estudo analisou três espécies australianas, a cobra-marrom-oriental, a copperhead e a cobra-tigre. A equipe utilizou morfometria geométrica tridimensional (3DGM), técnica que permitiu examinar em detalhes o formato de cada vértebra e acompanhar como sua estrutura muda ao longo de todo o corpo.
Em vez de encontrar uma transformação gradual e uniforme entre uma vértebra e outra, os cientistas observaram trechos com formatos semelhantes separados por zonas de mudança rápida. Essas transições permitiram reconhecer diferentes regiões anatômicas na coluna das serpentes.
O pescoço da cobra é bem menor do que se imaginava
Uma das principais descobertas envolve justamente uma região difícil de perceber externamente: o pescoço. Pesquisas anteriores indicavam que ele poderia corresponder a até 15% do comprimento do animal. A nova análise aponta para aproximadamente 5% do corpo.
Segundo Ammresh, doutorando da Escola de Ciências Biológicas da Universidade Monash e responsável pelo estudo, o pescoço possui cerca de sete a 12 vértebras, número semelhante ao encontrado em parentes próximos, como os lagartos.
A descoberta sugere que, durante a evolução, as cobras não alongaram todas as partes do corpo da mesma maneira. Enquanto outras regiões cresceram consideravelmente, o pescoço teria preservado uma configuração ancestral relativamente curta.
Maior parte do alongamento aconteceu no tórax
O estudo encontrou uma região cervical curta, correspondente ao pescoço, uma região lombar também curta e uma extensa região torácica, onde ocorreu a maior parte do alongamento característico das serpentes.
É justamente no tórax que apareceu outra novidade. Os pesquisadores identificaram três subdivisões, anterior, média e posterior. A região torácica média ainda não havia sido descrita dessa maneira.
Com isso, a nova análise chega a cinco regiões vertebrais, ampliando uma divisão apresentada em um importante estudo publicado na Nature em 2015, que havia identificado quatro: cervical, torácica anterior, torácica posterior e lombar.
Sem patas, transformar a coluna pode ter sido fundamental
A anatomia encontrada também oferece pistas sobre a evolução de animais sem membros. A forma alongada surgiu de maneira independente em diferentes grupos de vertebrados, em resposta a pressões ambientais e necessidades de locomoção distintas.
A nova descoberta reforça uma teoria segundo a qual animais sem patas podem ter encontrado na transformação e especialização de diferentes partes da coluna vertebral uma importante maneira de adaptar o corpo ao ambiente.
O resultado muda aquela imagem aparentemente simples de uma cobra como uma cabeça seguida por uma longa sequência praticamente igual de vértebras. Por dentro, o corpo apresenta regiões especializadas e transições anatômicas que ajudam a contar como uma das formas corporais mais características da natureza surgiu ao longo da evolução.
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