Ciência e Tecnologia • 14:07h • 31 de agosto de 2026
Cientistas descobrem forma de “desarmar” fungo que pode causar infecções fatais
Estudo descobriu que a gladiolina faz a Candida albicans abandonar sua forma invasiva e ainda pode aumentar a eficácia de um importante medicamento antifúngico
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Monash | Foto: Divulgação
Em vez de simplesmente matar um fungo perigoso, pesquisadores descobriram uma maneira de reduzir sua capacidade de causar danos ao organismo. Cientistas da Universidade Monash, na Austrália, em colaboração com a Universidade de Warwick, no Reino Unido, identificaram como a gladiolina, um antibiótico naturalmente produzido por bactérias, consegue alterar o comportamento da Candida albicans, uma das principais causas de infecções fúngicas potencialmente fatais.
Publicado na revista científica Current Biology, o estudo mostrou que a gladiolina consegue fazer a Candida albicans abandonar sua forma invasiva, conhecida como hifa, e retornar ao formato arredondado de levedura, menos agressivo. As hifas são estruturas semelhantes a filamentos que permitem ao fungo penetrar e danificar tecidos humanos, além de participar da formação de biofilmes resistentes a medicamentos.
A descoberta chama atenção justamente pela estratégia. “Isso nos dá uma maneira diferente de pensar sobre o controle das infecções fúngicas, não apenas matando o fungo, mas desarmando-o”, explica Ana Traven, professora do Monash Biomedicine Discovery Institute e principal autora do trabalho.
O fungo é levado a consumir mais rápido um recurso essencial
Os pesquisadores também descobriram como a gladiolina provoca essa transformação. A molécula modifica o metabolismo da Candida albicans e faz com que o microrganismo consuma mais glicose disponível no ambiente.

Uma imagem fluorescente de células de levedura crescendo em hifas ao longo do tempo
A glicose é importante para o crescimento das hifas invasivas. Segundo Manasa Bharathwaj, primeira autora do estudo e pesquisadora do instituto, a gladiolina leva a Candida a gastar seu suprimento mais rapidamente. Com menos glicose disponível, o fungo é forçado a retornar ao estado de levedura, considerado menos invasivo.
A Candida albicans normalmente pode viver no corpo humano sem provocar problemas, mas é capaz de causar infecções graves em pacientes criticamente enfermos ou imunocomprometidos. O risco também existe quando o fungo cresce sobre dispositivos médicos, como cateteres, onde pode formar biofilmes.
Gladiolina também pode reforçar medicamento já utilizado
O novo trabalho complementa uma descoberta publicada pelo grupo em 2024. As pesquisas indicam que a gladiolina também pode aumentar significativamente a eficácia da anfotericina B, um dos medicamentos antifúngicos mais importantes disponíveis.
Essa combinação abre uma segunda frente de investigação: além de reduzir um comportamento associado à capacidade da Candida albicans de causar doença, a molécula bacteriana pode ajudar medicamentos existentes a combater fungos perigosos, inclusive biofilmes resistentes.
Greg Challis, professor envolvido na pesquisa, afirma que os resultados sugerem a possibilidade de utilizar doses menores e potencialmente menos tóxicas de antifúngicos. Trata-se, porém, de uma perspectiva aberta pelos achados científicos, e não de um novo tratamento já disponível para pacientes.
Infecções fúngicas matam cerca de 2 milhões de pessoas por ano
A busca por novas estratégias ocorre diante de um problema de grandes proporções. Segundo Traven, infecções fúngicas provocam aproximadamente 2 milhões de mortes por ano no mundo, enquanto as opções de tratamento continuam limitadas.
Não existem vacinas contra infecções fúngicas e alguns dos medicamentos disponíveis podem apresentar elevada toxicidade. A capacidade de controlar esses microrganismos também é importante para áreas da medicina como cirurgias, tratamentos contra o câncer, transplantes de órgãos e cuidados intensivos.
A inspiração para novos medicamentos pode estar na própria competição existente entre microrganismos na natureza. Bactérias e fungos produzem substâncias para disputar nutrientes e espaço com outros organismos. A penicilina é um dos exemplos mais conhecidos dessa relação natural transformada em medicamento. Agora, os pesquisadores investigam se a gladiolina poderá seguir um caminho semelhante e inspirar novas formas de enfrentar infecções fúngicas difíceis de tratar.
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