Ciência e Tecnologia • 15:26h • 02 de setembro de 2026
Casa que identifica quedas e chama ajuda? Tecnologia mira uma população que envelhece sozinha
Brasil terá quase 4 em cada 10 habitantes com 60 anos ou mais em 2070, enquanto cresce o número de idosos vivendo sós; sensores e automação começam a ser pensados para preservar autonomia e identificar emergências
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Divulgação
Envelhecer dentro da própria casa, mantendo independência e privacidade, é o desejo de muitas pessoas. O desafio aparece quando não há ninguém por perto diante de uma queda ou outra emergência. Em um Brasil que envelhece rapidamente e já registra uma parcela significativa de idosos vivendo sozinhos, projetos residenciais começam a incorporar sensores, automação e sistemas capazes de identificar situações de risco e acionar uma rede de apoio.
A dimensão dessa mudança aparece nos dados do IBGE. A parcela da população brasileira com 60 anos ou mais passou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023. Em 2070, a projeção é de que esse grupo represente 37,8% dos habitantes do país, praticamente 4 em cada 10 brasileiros.
Ao mesmo tempo, mudam os arranjos familiares. Segundo o Censo 2022, 28,7% das pessoas com 60 anos ou mais que eram responsáveis pelo domicílio viviam em unidades unipessoais. Saída dos filhos de casa, divórcios e viuvez estão entre os fatores relacionados pelo IBGE a esse cenário.
E se a própria casa perceber uma emergência?
É nesse ponto que a tecnologia começa a assumir uma função que vai além de acender luzes, controlar a temperatura ou automatizar equipamentos. Um modelo de residência monitorada desenvolvido pelo especialista em gestão e inovação Lucas Silva, por exemplo, prevê a integração de sensores e dispositivos pessoais para acompanhar situações de risco sem a presença permanente de um cuidador.
Se uma queda for identificada, o sistema poderá executar ações previamente definidas, como avisar pessoas próximas, comunicar familiares ou solicitar atendimento de emergência. “É uma casa toda monitorada, voltada para o idoso que mora sozinho, sem enfermeiro, sem cuidador”, explica Silva.
As quedas estão entre os principais riscos associados ao envelhecimento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) as classifica como a segunda principal causa de mortes por lesões não intencionais no mundo, com aproximadamente 684 mil óbitos por ano. Pessoas acima dos 60 anos concentram o maior número de quedas fatais.
Casa preparada para envelhecer vai além de barras de apoio
A adaptação de uma residência para a velhice costuma ser associada a barras de apoio, pisos menos escorregadios, redução de degraus e espaços que facilitem a circulação. A tendência é que essa preocupação também alcance sensores, sistemas de emergência e até o mobiliário.
Armários muito altos, superfícies de difícil acesso e móveis que prejudicam a circulação podem se transformar em obstáculos conforme a mobilidade muda. Por isso, projetos pensados desde o início para acompanhar diferentes fases da vida podem reduzir a necessidade de grandes adaptações no futuro.
A tecnologia, entretanto, traz outro desafio: proteger sem retirar a autonomia de quem vive na casa. Privacidade, segurança dos dados, confiabilidade dos sensores, falhas de conexão e custos são questões que acompanham a possibilidade de uma residência cada vez mais capaz de monitorar o próprio morador.
Com quase 4 em cada 10 brasileiros projetados para estar acima dos 60 anos em 2070, a discussão sobre envelhecimento tende a ultrapassar hospitais, previdência e assistência social. Ela também chegará ao desenho das casas e cidades. Em um país no qual mais pessoas poderão envelhecer sozinhas, preparar a moradia para perceber uma emergência sem transformar independência em vigilância será parte desse desafio.
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