Saúde • 18:35h • 03 de fevereiro de 2026
Carnaval: Entenda como o HPV está mudando o perfil do câncer de boca e garganta no Brasil
Estudos indicam crescimento de tumores de orofaringe ligados ao HPV, especialmente entre jovens, e acendem alerta para prevenção e diagnóstico precoce
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Digital Trix | Foto: Divulgação
Com a proximidade do Carnaval, período marcado por maior exposição a comportamentos de risco, especialistas voltam a alertar para um tema que vem ganhando relevância na saúde pública, a relação entre o Papilomavírus Humano (HPV) e o câncer de garganta. Pesquisas recentes indicam que a incidência de tumores de boca e orofaringe associados ao vírus tem aumentado no Brasil e no mundo, podendo, nas próximas décadas, ultrapassar os casos tradicionalmente ligados ao tabagismo.
Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo, com base em dados de 15.391 pacientes do Registro de Câncer de Base Populacional de São Paulo, analisados entre 1997 e 2013, apontou crescimento do risco de câncer de boca e, principalmente, de orofaringe relacionados ao HPV entre homens e mulheres de até 39 anos. A orofaringe inclui estruturas como base da língua, amígdalas, palato mole e paredes da faringe, sendo a base da língua e as amígdalas as regiões mais afetadas.
Mesmo com os dados já consolidados há mais de uma década, o cenário atual segue preocupante. Para cada ano do triênio 2023 a 2025, o Instituto Nacional do Câncer estima cerca de 15.100 novos casos de câncer da cavidade oral e orofaringe no país, com risco de 6,99 casos a cada 100 mil habitantes. A tendência é de alta, semelhante ao observado em países desenvolvidos. Projeções indicam que, entre 2030 e 2040, o HPV poderá ser responsável por aproximadamente 50% dos tumores de orofaringe, dividindo protagonismo com o tabagismo.
Relação com o sexo oral e fatores de risco
O risco de infecção pelo HPV aumenta conforme o número de parceiros sexuais ao longo da vida, especialmente em práticas de sexo oral sem proteção. Estudos indicam que pessoas com mais de seis parceiros ao longo da vida apresentam risco até 8,5 vezes maior de desenvolver neoplasias associadas ao vírus em comparação com quem não pratica sexo oral.
Segundo o oncologista clínico Pedro De Marchi, especialista em tumores de cabeça, pescoço e tórax da Oncoclínicas, o câncer não surge pelo ato sexual em si, mas pela infecção persistente pelo HPV. O vírus possui mais de 200 subtipos e pode infectar pele e mucosas oral, genital e anal, em homens e mulheres.
“O uso de preservativos e a vacinação, oferecida gratuitamente pelo SUS para meninos e meninas de 9 a 14 anos, são medidas fundamentais de prevenção. Evitar o tabagismo e o consumo excessivo de álcool também reduz o risco”, explica.
Estima-se que cerca de 85% da população terá contato com o HPV em algum momento da vida. Na maioria dos casos, o próprio sistema imunológico elimina o vírus. No entanto, quando isso não ocorre, a infecção pode se tornar crônica, permanecer assintomática por anos e evoluir para câncer, além de continuar sendo transmitida.
Sintomas inespecíficos exigem atenção
Outro desafio está no diagnóstico. Os sintomas iniciais costumam ser pouco específicos e facilmente confundidos com problemas comuns de saúde. Entre os sinais estão dor ou dificuldade para engolir, sensação de alimento “preso”, aumento de ínguas no pescoço e feridas persistentes na garganta, às vezes com sangramento.
“A duração dos sintomas é o principal alerta. Se persistirem por mais de duas ou três semanas, é essencial procurar um médico especialista”, orienta De Marchi.
Diferentemente do câncer de colo do útero, não existe rastreamento populacional para câncer de orofaringe associado ao HPV. Por isso, a busca por atendimento precoce é decisiva, sobretudo entre fumantes, que apresentam risco ainda maior.
Tratamento e prevenção
Após a confirmação por biópsia, o estadiamento do tumor avalia o grau de avanço da doença, com exames como tomografia, ressonância magnética, PET/CT, exames de sangue e avaliação odontológica prévia, especialmente antes de radioterapia.
O tratamento varia conforme o estágio e as condições clínicas do paciente, podendo incluir radioterapia de alta precisão (IMRT), quimioterapia, terapia-alvo e imunoterapia, sempre com definição idealmente feita por equipe multidisciplinar.
Para conter o avanço da doença, o especialista reforça que informação e prevenção são essenciais. “A vacinação contra o HPV, com duas doses, oferece proteção de cerca de 98%, mas a cobertura ainda está abaixo do ideal, principalmente na segunda dose. Ampliar a imunização e o uso de preservativos é fundamental para mudar esse cenário”, conclui.
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