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Saúde • 08:58h • 05 de maio de 2026

Canetas emagrecedoras podem reforçar 'economia moral da magreza'

Professora da USP Fernanda Scagluiza discute padrões corporais

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1

Apesar de produzirem efeitos expressivos e de terem conquistado o endosso de diversas sociedades médicas, esses remédios também têm sido usados sem acompanhamento profissional, ou por pessoas que não apresentam obesidade.
Apesar de produzirem efeitos expressivos e de terem conquistado o endosso de diversas sociedades médicas, esses remédios também têm sido usados sem acompanhamento profissional, ou por pessoas que não apresentam obesidade.

A popularização dos medicamentos subcutâneos para tratamento da obesidade, conhecidos como canetas emagrecedoras, tem gerado debates. Embora apresentem resultados expressivos e tenham o respaldo de entidades médicas, esses remédios vêm sendo usados sem acompanhamento profissional ou por pessoas que não têm obesidade.

Para a professora das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Fernanda Scagluiza, o sucesso dessas canetas está ligado ao que ela chama de “economia moral da magreza”.

Segundo a especialista, a sociedade atribui valores diferentes aos corpos: enquanto corpos magros ou musculosos são vistos como sinal de disciplina e esforço, corpos gordos costumam ser associados a estigmas como preguiça, falta de controle e até incompetência — percepções que não correspondem à realidade.

Esse cenário cria desigualdades nas relações sociais, favorecendo pessoas dentro do padrão estético e excluindo outras. Para ela, padrões de beleza sempre existiram, mas acabam limitando a diversidade e alimentando uma indústria que lucra ao vender soluções para quem está fora desse ideal.

A pressão estética, segundo Scagluiza, atinge principalmente pessoas gordas, mas também afeta quem não está acima do peso. A busca por um corpo cada vez mais magro faz com que qualquer gordura seja vista como problema, impulsionando o consumo de soluções como as canetas.

Ela avalia que, apesar de avanços recentes com movimentos de valorização da diversidade corporal, há um retorno ao padrão de magreza extrema, o que pode ser especialmente prejudicial para crianças e adolescentes.

A especialista também alerta para a medicalização do corpo saudável, quando questões sociais passam a ser tratadas como problemas médicos. Nesse contexto, a alimentação deixa de ser um aspecto cultural e passa a ser encarada de forma funcional, como parte de um tratamento.

Estudos indicam que usuárias dessas medicações chegam a tratá-las como uma “vacina contra a fome”, reduzindo a alimentação ao mínimo necessário e, em alguns casos, utilizando efeitos colaterais, como náusea, para evitar comer.

Para Scagluiza, esse comportamento pode trazer riscos à saúde física e mental, além de afetar a relação das pessoas com a comida. Ela destaca que a alimentação saudável é um direito humano e envolve não apenas nutrição, mas também aspectos culturais, sociais e de bem-estar, que podem ser comprometidos nesse processo.

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