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Saúde • 14:11h • 06 de março de 2026

Calor extremo vira risco de trabalho e médicos lançam guia para empresas

Publicação reúne orientações práticas para proteger trabalhadores expostos a altas temperaturas e alerta para impacto na saúde e na produtividade

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da DePropósito Assessoria | Foto: Divulgação

Temperaturas mais altas pressionam trabalho e especialistas lançam guia para empresas
Temperaturas mais altas pressionam trabalho e especialistas lançam guia para empresas

O Instituto Ar e o Movimento Médicos pelo Clima lançaram um guia voltado a empresas de médio e grande porte com orientações para enfrentar os impactos do calor excessivo no ambiente de trabalho. A publicação foi desenvolvida em parceria com a Associação Paulista de Medicina do Trabalho (APMT) e conta com apoio do Instituto Itaúsa.

O material reúne recomendações práticas para que empresas passem a tratar o aumento da temperatura como um risco ocupacional. O documento foi elaborado por médicos do trabalho e especialistas em saúde e apresenta orientações aplicáveis a setores como agroindústria, construção civil, transporte e logística.

Segundo os organizadores, ainda existe uma lacuna na forma como o tema é tratado no ambiente corporativo. Embora existam normas de segurança do trabalho, muitas empresas ainda não relacionam de forma direta a mudança do clima e o aumento das temperaturas com a saúde dos trabalhadores.

A médica Evangelina Araújo, fundadora do Instituto Ar, afirma que a adaptação das empresas já deveria estar em curso. “No Brasil estamos atrasados. As empresas ainda não incorporaram que o aumento regular da temperatura já exige medidas de proteção, não apenas durante ondas de calor”, afirma.

Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que cerca de 70% da força de trabalho mundial, aproximadamente 2,4 bilhões de pessoas, já está exposta a altas temperaturas durante suas atividades. O impacto é significativo também na produtividade: estima-se que o calor provoque a perda de cerca de 6,2 bilhões de horas produtivas por ano no mundo.

70% dos trabalhadores já enfrentam calor excessivo e guia orienta empresas

O médico do trabalho João Silvestre da Silva-Junior, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores do guia, explica que o calor nem sempre provoca afastamentos imediatos, mas afeta diretamente o desempenho dos trabalhadores. A necessidade de pausas frequentes, hidratação e recuperação fisiológica reduz a produtividade mesmo quando não há emissão de atestado médico.

No Brasil, todas as empresas são obrigadas a manter um Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), previsto na Norma Regulamentadora nº 7 do Ministério do Trabalho. Esse programa deve ser elaborado por um médico do trabalho e pode ser executado internamente ou por meio de clínicas especializadas.

Segundo os especialistas, o enfrentamento do calor precisa ser integrado à gestão de riscos das empresas, envolvendo segurança do trabalho, higiene ocupacional, medicina do trabalho e organização da produção. Entre as medidas recomendadas estão reorganização das jornadas para evitar horários mais quentes, rodízio de trabalhadores expostos, ampliação da hidratação e pausas programadas.

Os dados climáticos reforçam a preocupação. Em 2025, a temperatura média anual do Brasil foi de 24,56ºC, 0,33ºC acima da média histórica, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). O ano foi o sétimo mais quente da série histórica iniciada em 1961.

Para a pneumologista Danielle Bedin, embaixadora do Movimento Médicos pelo Clima e também autora do guia, o aquecimento global já impacta diretamente a saúde da população. Trabalhadores que atuam ao ar livre ou em ambientes internos pouco ventilados estão entre os mais vulneráveis.

Entre os primeiros sinais de sobrecarga térmica estão mal-estar, fraqueza, boca seca e aumento da frequência cardíaca, geralmente associados à desidratação. Em situações mais graves, a exposição ao calor pode evoluir para tontura, desmaios, arritmias e até infarto.

O guia apresenta recomendações específicas para diferentes perfis de trabalhadores, como aqueles que atuam em áreas externas, ambientes industriais quentes ou espaços fechados sem ventilação adequada. Também há orientações para grupos mais vulneráveis, como idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas.

Entre as principais diretrizes estão garantir acesso contínuo à água potável, oferecer pausas em ambientes frescos, reorganizar tarefas nos horários de menor calor e investir em ventilação, sombreamento e climatização dos espaços de trabalho.

O documento também recomenda que empresas utilizem indicadores técnicos de estresse térmico, como o IBUTG, índice que considera temperatura, umidade e radiação solar para avaliar a exposição ao calor. Essas medições ajudam a definir limites de exposição e medidas de proteção.

O guia Mudança do clima: calor e saúde do trabalhador está disponível para download gratuito no site do Instituto Ar e busca ampliar o debate sobre adaptação das empresas diante das mudanças climáticas e seus efeitos na saúde ocupacional.

Acesse o Guia aqui.

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