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Responsabilidade Social • 18:22h • 02 de maio de 2026

Calor extremo já mata mais que muitos desastres e pressiona cidades a mudar o urbanismo

Estudo aponta quase 489 mil mortes por ano ligadas ao calor e cobra integração entre saúde pública e planejamento urbano

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Mention | Foto: Divulgação

Até 3º a menos pode salvar vidas: por que o urbanismo virou peça-chave contra o calor
Até 3º a menos pode salvar vidas: por que o urbanismo virou peça-chave contra o calor

O avanço do calor extremo deixou de ser apenas uma questão climática e passou a ocupar lugar central no debate sobre saúde pública. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de 489 mil mortes por ano estão associadas às altas temperaturas no mundo, número que coloca o fenômeno entre os principais riscos ambientais da atualidade. Ainda assim, essa evidência não tem sido acompanhada, na mesma velocidade, por mudanças estruturais no planejamento das cidades.

A análise é destacada por Dayse Vital, analista de projetos na Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES), com formação em arquitetura e urbanismo e mestrado em Projeto, Arquitetura e Meio Ambiente. Para ela, o descompasso entre ciência e política urbana evidencia um ponto crítico: o calor já impacta diretamente a saúde das populações, mas ainda não é tratado como prioridade no desenho das cidades.

Cidades mais quentes, noites mais perigosas

A intensificação do problema pode ser observada na evolução recente da exposição ao calor. Entre 2000 e 2016, cerca de 125 milhões de pessoas adicionais passaram a enfrentar ondas de calor, segundo a OMS. Esse crescimento não se explica apenas pelo aumento populacional, mas pela forma como as cidades se expandem.

Ambientes urbanos densos, com grande quantidade de concreto e asfalto, favorecem o acúmulo de calor ao longo do dia e dificultam sua dissipação durante a noite. Esse cenário cria as chamadas ilhas de calor, onde as temperaturas permanecem elevadas por mais tempo. O impacto vai além do desconforto térmico: noites quentes comprometem a recuperação do organismo e elevam o risco de mortalidade em períodos prolongados de calor.

Esse efeito é ainda mais crítico em regiões com menor infraestrutura urbana. Áreas com pouca arborização, maior exposição solar e acesso limitado a serviços tendem a concentrar os impactos, ampliando desigualdades já existentes.

Impacto direto na saúde e pressão sobre sistemas públicos

O calor intenso está associado ao aumento de internações por doenças cardiovasculares e respiratórias, além de agravar quadros crônicos. O sistema de saúde passa a operar sob pressão adicional, ao mesmo tempo em que a produtividade econômica é afetada.

Segundo Dayse Vital, esse cenário exige uma mudança de abordagem. O calor não pode mais ser tratado como evento pontual, mas como um fator estrutural que precisa ser incorporado ao planejamento urbano e às políticas públicas de saúde.

Soluções existem e já mostram resultado

Apesar do desafio, há caminhos já testados. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que soluções baseadas na natureza, como ampliação de áreas verdes e arborização, podem reduzir a temperatura urbana entre 1,5º e 3º. Em situações extremas, essa diferença pode ser decisiva para salvar vidas.

Experiências internacionais reforçam essa possibilidade. Em Medellín, na Colômbia, a criação de corredores verdes reduziu em cerca de 2º a temperatura em áreas urbanas. Já em Barcelona, a implementação de refúgios climáticos criou espaços preparados para acolher a população durante picos de calor, tratando o tema diretamente como questão de saúde pública.

Custo de não agir tende a crescer

Além dos impactos sociais e sanitários, o calor extremo também impõe custos econômicos. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente aponta que investir em estratégias de resfriamento urbano é mais barato do que arcar com os efeitos do calor sobre hospitais, infraestrutura e produtividade.

A falta de planejamento nesse sentido cria um passivo crescente para as cidades, que tendem a enfrentar despesas maiores à medida que os eventos climáticos se intensificam.

No Brasil, esse cenário se agrava em regiões periféricas, onde a combinação de alta exposição ao calor e menor capacidade de adaptação amplia vulnerabilidades. Projetos que integrem vegetação, manejo de água e qualificação do ambiente urbano aparecem como alternativas cada vez mais urgentes.

Para Dayse Vital, o ponto central é claro: o calor urbano já é um determinante direto de saúde pública. Incorporar o frescor ao planejamento das cidades deixa de ser uma escolha técnica e passa a ser uma necessidade estratégica diante de um cenário que tende a se intensificar nos próximos anos.

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