Ciência e Tecnologia • 09:17h • 19 de agosto de 2026
Brasil terá primeira fábrica de pele de tilápia para tratar queimaduras
Unidade será construída no Ceará com investimento inicial de R$ 52 milhões e poderá processar até 12 mil peles por dia para produção de curativos biológicos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da CFF | Foto: Divulgação
Uma tecnologia brasileira que transforma pele de tilápia em curativo biológico para queimaduras e feridas de difícil cicatrização está prestes a ganhar escala industrial. O Brasil deverá receber, em Jaguaribara, no interior do Ceará, a primeira fábrica do mundo dedicada ao processamento em larga escala desse material para uso médico. O investimento inicial previsto é de R$ 52 milhões.
A tecnologia nasceu de pesquisas desenvolvidas pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e aproveita uma parte do peixe normalmente descartada pela indústria. Atualmente, o laboratório da universidade consegue preparar aproximadamente 600 peles por mês. A nova unidade, conduzida pelo Consórcio Biotec por meio da Inova Medical, prevê processar 4,3 mil peles por dia no primeiro ano de operação comercial, com capacidade para chegar a 12 mil diariamente em uma segunda etapa.
As obras estão previstas para começar em outubro de 2026 e devem durar entre 15 e 18 meses, período que inclui construção, instalação dos equipamentos e validação dos lotes-piloto. Mantido o cronograma, a operação poderá começar em janeiro de 2028, mas a comercialização dependerá do cumprimento das exigências regulatórias e sanitárias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Da pele do peixe ao tratamento de queimaduras
Antes de chegar ao paciente, a pele da tilápia passa por processos de preparação e esterilização. O material pode então ser aplicado diretamente sobre a região lesionada, aderindo à superfície da ferida, e vem sendo estudado para utilização em queimaduras de segundo e terceiro graus.
Uma das vantagens apontadas é a possibilidade de diminuir a frequência das trocas de curativos. Em tratamentos convencionais, essas substituições podem provocar dor e demandar novos procedimentos e medicamentos analgésicos.
Segundo dados apresentados pelos responsáveis pelo projeto, o uso da tecnologia pode reduzir em até 52% o custo total do tratamento de queimaduras em comparação aos métodos convencionais. Há ainda expectativa de redução do uso de analgésicos opioides e de procedimentos cirúrgicos relacionados à substituição dos curativos. Com a produção industrial, a intenção é ampliar o acesso à tecnologia e atender parte da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS).
Curativo poderá durar até três anos sem refrigeração
A fábrica também deverá incorporar a liofilização, processo de desidratação que permite conservar a pele processada sem necessidade de refrigeração. A previsão é de validade de até três anos em temperatura ambiente. Antes da utilização, o curativo deverá ser reidratado com solução fisiológica.
Essa característica pode facilitar tanto o armazenamento quanto o transporte para regiões distantes dos centros produtores. Também abre espaço para a internacionalização da tecnologia. México, Turquia e Portugal já demonstraram interesse em pesquisas e possíveis aplicações envolvendo o material.
A escolha de Jaguaribara está ligada à proximidade com o Açude Castanhão, importante região produtora de tilápia no Ceará. Além do potencial médico, o projeto permite transformar um resíduo da cadeia pesqueira em matéria-prima de maior valor agregado. A estimativa é de que a fábrica gere inicialmente cerca de 200 empregos diretos, com capacitação técnica de parte dos profissionais em parceria com a UFC e outras instituições.
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