Variedades • 21:54h • 29 de maio de 2026
Brasil está preparado para enfrentar um El Niño extremo? Cidades seguem expostas a tragédias climáticas
Especialista da Unesp/Cemaden alerta que o maior desafio do país não está apenas no fenômeno climático, mas na dificuldade de incorporar risco ambiental ao planejamento urbano e hídrico
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Unesp | Foto: Âncora1
A possibilidade de um El Niño mais intenso entre 2026 e 2027 voltou a acender o alerta sobre os impactos climáticos no Brasil, mas especialistas defendem que o principal problema do país não está apenas no fenôeno natural em si. O debate ganha força porque o Brasil chega a esse cenário ainda marcado por vulnerabilidades históricas, expansão urbana desordenada, pressão sobre recursos hídricos e dificuldades estruturais para transformar conhecimento científico em prevenção prática de desastres.
O alerta aparece em um momento em que o país ainda convive com os efeitos recentes de eventos extremos registrados em diferentes regiões. Nos últimos anos, enchentes no Sul, secas severas na Amazônia, ondas de calor persistentes e incêndios florestais passaram a ocorrer com maior frequência e intensidade, pressionando cidades, sistemas de abastecimento, produção agrícola e serviços públicos.
Segundo o professor Enner Alcântara, do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais da Unesp/Cemaden, o desafio brasileiro vai muito além da previsão climática. Para ele, desastres raramente são provocados apenas pela chuva, pela seca ou pelo calor extremo. O impacto depende diretamente da forma como os territórios foram ocupados e estruturados ao longo das últimas décadas.
Em áreas urbanas com drenagem insuficiente, ocupações irregulares e infraestrutura precária, episódios de chuva intensa tendem a produzir consequências muito mais graves. O mesmo acontece em regiões que enfrentam baixa segurança hídrica e dependem fortemente de agricultura sensível às variações climáticas. Nessas condições, fenômenos como o El Niño acabam expondo problemas estruturais que já existiam antes mesmo da alteração climática.
Cientistas alertam que próximo El Niño pode encontrar um Brasil ainda despreparado para extremos | Arte: Âncora1
O Brasil possui hoje capacidade técnica muito mais avançada para monitorar fenômenos meteorológicos e prever cenários climáticos do que tinha há algumas décadas. Sistemas de alerta, modelagem climática e monitoramento hidrológico evoluíram significativamente, permitindo acompanhar secas, enchentes e extremos climáticos com maior precisão.
O problema, segundo especialistas, é que o avanço científico nem sempre se transforma em planejamento urbano, prevenção territorial e redução efetiva de risco. Em muitas cidades brasileiras, a ocupação continuou avançando sobre encostas, margens de rios e áreas suscetíveis a alagamentos, enquanto regiões sob pressão hídrica ampliaram consumo e expansão urbana sem adaptação compatível com a variabilidade climática do país.
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Enner Alcântara ressalta que preparar o Brasil para possíveis impactos associados ao El Niño não significa impedir a ocorrência do fenômeno, algo impossível do ponto de vista climático. A questão central está na redução das vulnerabilidades já existentes. Medidas como melhoria da drenagem urbana, fortalecimento de sistemas de alerta, proteção de encostas, ampliação do monitoramento hidrológico e planejamento territorial são consideradas mais eficientes do que respostas emergenciais tomadas apenas depois das tragédias.
O debate sobre um possível El Niño intenso entre 2026 e 2027 também reforça outra preocupação crescente entre pesquisadores: eventos naturais de variabilidade climática passam a atuar sobre uma atmosfera mais quente devido ao aquecimento global. Isso aumenta a disponibilidade de energia e vapor d’água no sistema atmosférico, cenário que pode favorecer extremos mais intensos em diferentes regiões do planeta.
Mesmo assim, especialistas alertam para o risco de simplificações. Nem todo El Niño produz os mesmos efeitos, e atribuir automaticamente qualquer desastre climático ao fenômeno pode gerar interpretações equivocadas. A preocupação maior está na combinação entre variabilidade climática e fragilidades estruturais acumuladas historicamente no território brasileiro.
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Para pesquisadores da área de desastres naturais, a discussão atual serve como um alerta importante sobre a necessidade de transformar prevenção em política permanente de planejamento urbano, hídrico e ambiental. Em um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes, reduzir vulnerabilidades pode ser decisivo para evitar que eventos naturais se transformem em tragédias de grandes proporções.
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