Saúde • 09:16h • 20 de setembro de 2026
Bets já custam R$ 30,6 bilhões por ano à saúde e procura por atendimento no SUS dispara 140%
Estudo calcula impacto de problemas relacionados às apostas online enquanto mais de 1 milhão de brasileiros já pediram para bloquear o próprio acesso às plataformas
Da Redação | Com informações da EBC | Foto: Arquivo/Âncora1
Os danos à saúde associados às apostas online provocam um impacto financeiro estimado em R$ 30,6 bilhões por ano no Sistema Único de Saúde (SUS), segundo estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). O cálculo considera despesas relacionadas ao tratamento de depressão e ansiedade e impactos decorrentes de mortes por suicídio, em um cenário no qual a procura por atendimento ligada à dependência de apostas e jogos de azar cresceu 140% nos últimos cinco anos.
O avanço da demanda aparece em diferentes pontos da Rede de Atenção Psicossocial. Segundo o diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, o governo criou em fevereiro uma porta de entrada eletrônica específica para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. Desde então, 20 mil pessoas se cadastraram após realizar um teste.
A procura levou à ampliação da capacidade de teleatendimento. O serviço, realizado em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS), passou de capacidade para 600 atendimentos para até 100 mil teleatendimentos mensais.
O estudo do IEPS também chama atenção para a diferença entre o impacto estimado sobre a saúde e os recursos provenientes do próprio setor. Conforme as informações divulgadas, 1% do valor arrecadado das operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para ações relacionadas a esses danos.
Mais de 1 milhão decidiram se impedir de apostar
Outro indicador da dimensão do problema aparece na plataforma de autoexclusão criada pelo Ministério da Fazenda. Mais de 5 milhões de CPFs estão bloqueados nos sites de apostas online autorizados pelo governo federal. O total inclui pessoas impedidas de apostar por diferentes critérios, como beneficiários de programas sociais.
Dentro desse universo, mais de 1 milhão de usuários solicitaram voluntariamente a própria autoexclusão. Entre aqueles que tomaram essa decisão, quase metade apontou problemas de saúde mental relacionados às apostas como motivo para bloquear o acesso.
Para quem desenvolveu dependência, interromper as apostas pode envolver sucessivas tentativas. O vendedor Gustavo Pereira, de 24 anos, morador de Lages, em Santa Catarina, começou a apostar aos 18 e estima ter perdido R$ 500 mil em seis anos. Há cerca de dois meses sem apostar, ele recorreu à autoexclusão depois de enfrentar recaídas durante o processo.
Após abandonar as bets, Gustavo passou a vender café nas ruas para reconstruir a vida financeira. Ele relata ter recuperado a autoestima e continua em acompanhamento para permanecer afastado das apostas.
Quando apostar começa a ocupar o lugar de todo o resto
A dependência nem sempre aparece primeiro na conta bancária. Isolamento, alterações de humor, aumento dos gastos e perda de interesse por outras atividades estão entre os comportamentos que podem indicar um problema.
Carla Xavier, de 41 anos, frequentadora dos Jogadores Anônimos e há mais de um ano sem apostar, relata que chegou ao ponto de querer abandonar o trabalho e permanecer em casa apenas para jogar. Segundo ela, até o sono passou a ser deixado de lado para continuar nas apostas.
Para a psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, a família deve procurar ajuda quando perceber sinais de dependência, evitando transformar o problema em julgamento moral. A vergonha, segundo a especialista, pode contribuir para que o sofrimento permaneça escondido.
Em crianças e adolescentes, mudanças importantes na rotina também merecem atenção. Perda de sono, prejuízo escolar, abandono de outras atividades, afastamento dos amigos e dificuldade para interromper o jogo são alguns dos sinais apontados pelos especialistas ouvidos.
Onde procurar ajuda
O SUS oferece atendimento psicológico relacionado à dependência de jogos e apostas por meio do Meu SUS Digital, além do acompanhamento presencial nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs). O atendimento também pode envolver familiares.
Os Jogadores Anônimos realizam reuniões presenciais e online para pessoas com problemas relacionados ao jogo, enquanto o JOG-Anon é direcionado a familiares e amigos.
Em situações de sofrimento emocional ou crise, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito pelo telefone 188 e pela internet.
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