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Saúde • 10:17h • 19 de agosto de 2025

Ataques de abelhas crescem no Brasil e já superam registros de acidentes com serpentes

Entre 2021 e 2024, o número de ocorrências envolvendo abelhas africanizadas aumentou 83%, chegando a mais de 34 mil casos por ano. O avanço preocupa especialistas, que alertam para os riscos à saúde e defendem a urgência de um soro específico contra o veneno das picadas

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Jonathan Wilkins

Criação de abelhas africanizadas para produção de produtos apícolas.
Criação de abelhas africanizadas para produção de produtos apícolas.

Celebradas pela polinização e produção de mel, as abelhas da espécie Apis mellifera também representam um risco crescente à saúde no Brasil. Entre 2021 e 2024, os ataques de enxames aumentaram 83%, passando de 18.668 para 34.252 registros, segundo pesquisadores da Unesp. Nesse período, o número de mortes mais que dobrou: de 56 para 125 ao ano. Desde 2023, os acidentes com abelhas já superam os causados por serpentes.

Um estudo publicado na revista Frontiers in Immunology, coordenado pelo médico-veterinário Rui Seabra Ferreira Júnior, do Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap/Unesp), classifica os ataques como um problema de saúde pública negligenciado. O motivo é a ausência de tratamento específico: ao contrário de cobras, escorpiões e aranhas, ainda não existe um antídoto contra o veneno das abelhas.

“Hoje, o tratamento é apenas para os sintomas. Um soro antiapílico já foi desenvolvido e patenteado, mas ainda aguarda financiamento para a última fase de testes clínicos”, explica o médico Benedito Barraviera, também da Unesp. O novo soro foi criado em parceria com o Instituto Butantan e o Instituto Vital Brazil e pode reduzir complicações graves, como falência renal, problemas neurológicos e até parada cardiorrespiratória.

Crescimento dos ataques

As causas do aumento ainda não estão totalmente claras. O biólogo Osmar Malaspina, referência no estudo das abelhas no Brasil, aponta o desmatamento, a busca por alimentos em áreas urbanas e a expansão da apicultura como fatores possíveis. “Quando há mais abelhas do que uma colmeia comporta, elas migram em busca de abrigo e alimento. Muitas vezes, encontram nas cidades as condições ideais para se instalar”, explica.

As abelhas africanizadas, conhecidas pela defensividade, não foram introduzidas ao acaso. O cruzamento de espécies africanas e europeias ocorreu em São Paulo na década de 1950, para impulsionar a produção de mel. Hoje, elas fazem do Brasil o décimo maior produtor mundial, com 64,2 milhões de quilos em 2023.

Riscos à saúde

Os efeitos das ferroadas variam de acordo com cada organismo. Em pessoas alérgicas, uma única picada pode causar choque anafilático, exigindo atendimento imediato com adrenalina. Já em casos de múltiplas picadas, mesmo em pessoas não alérgicas, o excesso de veneno pode intoxicar o corpo, levando a complicações graves.

Prevenção

Na ausência de um tratamento específico, especialistas reforçam os cuidados para evitar acidentes. A recomendação é nunca tentar remover colmeias por conta própria, não usar venenos, evitar barulho e movimentos bruscos próximos ao ninho e acionar a Defesa Civil, bombeiros ou empresas especializadas.

Se uma picada ocorrer perto de uma colmeia, o ideal é retirar o ferrão rapidamente e se afastar do local em calma. “Quando uma abelha ferroa, libera um feromônio que atrai as outras. Gritar ou matar o inseto aumenta ainda mais a perseguição”, alerta Malaspina.

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