Responsabilidade Social • 18:58h • 16 de setembro de 2026
Anoiteceu? Para 83% das mulheres, sair de casa à noite já é motivo para mudar a rotina
Pesquisa nacional mostra que medo da violência interfere em trajetos, lazer, trabalho e estudo, enquanto 98% das brasileiras adotam alguma estratégia para tentar reduzir riscos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da EBC | Foto: Arquivo/Âncora1
Anoitecer muda também a forma como milhões de mulheres brasileiras circulam pelas cidades. Uma pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, com apoio da Uber, revela que 83% evitam sair à noite por medo da violência e 98% adotam ao menos alguma estratégia para reduzir riscos no cotidiano. O levantamento ouviu 1,5 mil pessoas com 16 anos ou mais, de todas as regiões do país, entre 22 e 30 de abril de 2026.
A insegurança aparece de forma mais intensa entre as mulheres. Segundo o estudo, 94% delas afirmam se sentir inseguras diante da violência no dia a dia, ante 84% dos homens. Nos deslocamentos pelas cidades, 94% das entrevistadas relatam medo, enquanto entre os homens o índice chega a 90%.
As experiências de violência também ajudam a dimensionar esse comportamento. Oito em cada dez mulheres, ou 78%, afirmaram já ter sofrido pelo menos um tipo de violência. Entre os ambientes que provocam maior sensação de vulnerabilidade estão pontos de ônibus e estações, onde 42% dizem não se sentir nada seguras, além de bares, festas e baladas, com 41%. Dentro do transporte público, o percentual chega a 33%.
Quando o medo começa a decidir o caminho
Evitar determinados lugares é a precaução mais frequente, adotada por 90% das mulheres. Outros 88% evitam divulgar informações pessoais ou localização nas redes sociais, 84% deixam de usar o celular na rua e 83% avisam alguém sobre seus trajetos e horários.
Também são comuns medidas que interferem diretamente na mobilidade. Cerca de 77% compartilham a localização com pessoas de confiança, 69% mudam trajetos habituais e 66% recorrem a carro ou moto por aplicativo para evitar caminhar pelas ruas. O mesmo percentual já pediu companhia para sair de casa.

As restrições chegam ao lazer. Seis em cada dez mulheres, ou 62%, já modificaram hábitos por medo da violência, enquanto 58% deixaram de frequentar lugares dos quais gostavam. Mesmo em percursos curtos, 56% já escolheram algum meio de transporte em vez de caminhar.
Medo interfere até em trabalho e estudo
O impacto ultrapassa os momentos de lazer e chega a decisões capazes de alterar projetos pessoais. Entre as entrevistadas, 45% afirmaram já ter deixado passar alguma oportunidade profissional ou de estudo por causa do medo da violência. Outras 44% chegaram a considerar uma mudança de bairro ou cidade em busca de maior segurança.
A diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, Vera Vieira, avalia que os números revelam uma rotina marcada por escolhas e renúncias relacionadas à segurança. “A insegurança deixou de ser uma percepção pontual e se transformou numa rotina de cálculos e renúncias silenciosas”, afirmou.
Entre as medidas consideradas importantes pelas entrevistadas, 95% defendem a ampliação dos canais de denúncia e apoio às vítimas, enquanto 93% apontam a necessidade de melhorias na infraestrutura urbana, incluindo iluminação, transporte e espaços públicos. O mesmo percentual considera importante criar ou ampliar políticas específicas de proteção às mulheres.
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