Responsabilidade Social • 15:09h • 09 de setembro de 2026
Amazônia concentra 15% das espécies de peixes conhecidas no mundo, aponta estudo
Bacia abriga mais de 2,7 mil espécies de água doce e cerca de dois terços são exclusivas da região; mudanças climáticas, barragens, garimpo e desmatamento ampliam ameaças
Da Redação | Com informações da EBC | Foto: Divulgação
A Bacia Amazônica abriga mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce, o equivalente a cerca de 15% de todas as espécies conhecidas no mundo. Aproximadamente dois terços são encontradas exclusivamente na região, segundo a quarta edição do relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, elaborado a partir do trabalho de mais de 50 especialistas de 30 organizações.
Além da diversidade, o levantamento chama atenção para a importância dos peixes no funcionamento da própria floresta e na vida das populações amazônicas. Eles participam da dispersão de sementes, transportam nutrientes entre diferentes ambientes, sustentam cadeias alimentares e são fundamentais para a alimentação e a geração de renda de comunidades.
Para Fernanda Silva, cientista da The Nature Conservancy (TNC) e autora principal do relatório, a Amazônia ainda oferece uma oportunidade diferente de regiões onde os esforços ambientais passaram a se concentrar na recuperação de ecossistemas já degradados. “A Amazônia oferece uma oportunidade diferente: proteger um sistema de água doce de importância global enquanto ele ainda está em pleno funcionamento”, afirma.
Peixes chegam a transportar sementes e percorrer 11 mil quilômetros
Tambaquis, pacus e matrinxãs estão entre as espécies que entram nas florestas alagadas para consumir frutos e acabam dispersando sementes por grandes distâncias. Outros peixes transportam nutrientes e energia entre ambientes aquáticos e terrestres, fazendo com que alterações nessas populações também possam atingir a vegetação e animais como botos, ariranhas e aves.
A dourada exemplifica a dimensão das conexões existentes nos rios amazônicos. A espécie realiza a mais longa migração exclusivamente em água doce já registrada, com um único indivíduo podendo percorrer mais de 11 mil quilômetros durante o ciclo de vida, entre áreas próximas aos Andes e o estuário do Amazonas.
A interrupção dessas rotas já produz consequências. Segundo o relatório, barragens no rio Madeira bloquearam antigas rotas migratórias da dourada, contribuindo para a redução dos estoques e para o desaparecimento, na prática, de uma atividade pesqueira histórica na região da Cachoeira do Teotônio.
144 espécies estão ameaçadas e outras 334 têm dados insuficientes
Apesar da biodiversidade conhecida, ainda existem lacunas importantes sobre a situação dos peixes amazônicos. A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reúne 144 espécies ameaçadas na região, enquanto outras 334 estão classificadas como Dados Insuficientes.
Hidrelétricas, desmatamento, poluição e pesca excessiva aparecem entre as pressões que podem fragmentar habitats, alterar a vazão dos rios e comprometer a qualidade da água. As mudanças climáticas acrescentam outro risco: projeções reunidas no estudo indicam que a descarga anual dos rios pode diminuir mais de 40% em áreas importantes, como as cabeceiras do Madeira.
O garimpo também preocupa. De acordo com os dados apresentados no relatório, a mineração não industrial de ouro responde por 83% das emissões de mercúrio provocadas por atividades humanas na América do Sul. O contaminante se acumula na cadeia alimentar, e o consumo de pescado é apontado como a principal via de exposição humana ao mercúrio na Amazônia.
Consumo de peixe supera 600 gramas por pessoa em algumas comunidades
A conservação dos rios tem impacto direto na segurança alimentar. Em algumas comunidades ribeirinhas remotas, o consumo diário de pescado ultrapassa 600 gramas por pessoa. O alimento está entre as fontes de proteína animal mais acessíveis para famílias de baixa renda e fornece nutrientes importantes para a saúde e o desenvolvimento.
A pesca também movimenta a economia regional, embora parte da produção artesanal, de pequena escala ou destinada à subsistência não apareça nas estatísticas oficiais. Pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente, enquanto a atividade ornamental exporta dezenas de milhões de exemplares por ano e gera renda para milhares de famílias.
O relatório identificou ainda pelo menos 155 iniciativas de manejo comunitário da pesca no Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia. Juntas, abrangem quase 13 milhões de hectares e envolvem mais de 1,2 mil comunidades e 21 mil pescadores. Segundo o levantamento, essas experiências estão associadas ao aumento da abundância de peixes e da riqueza de espécies, além de benefícios econômicos e sociais.
Aviso legal
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, integral ou parcial, do conteúdo textual e das imagens deste site. Para mais informações sobre licenciamento de conteúdo, entre em contato conosco.
Últimas Notícias
As mais lidas do mês
Educação
Quem são os alunos de Assis, Cândido Mota e Florínea que conquistaram intercâmbio internacional: veja a lista
Jovens de oito municípios estudarão no Canadá, na Irlanda e na Nova Zelândia pelo Prontos pro Mundo e devem entregar documentos até 21 de setembro