Responsabilidade Social • 18:41h • 18 de setembro de 2026
Abrimos 30 Stories e 13 eram bets, o retrato de uma publicidade que invade as redes
Análise feita pelo Âncora1 encontrou publicidade de jogos em 43% da sequência observada, com ofertas de rodadas, personagens coloridos e chamadas de baixo valor para estimular o primeiro clique
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Foto: Reprodução
Você abre os Stories para acompanhar amigos, família, notícias ou entretenimento. Avança uma publicação, depois outra, até que a sequência é interrompida por uma propaganda de aposta. O Âncora1 decidiu medir essa experiência e, em um análise realizada nas redes sociais, percorreu cerca de 30 Stories consecutivos. Em 13 deles, apareceram anúncios de bets intercalados ao conteúdo, o equivalente a aproximadamente 43% da sequência observada. O levantamento não tem caráter estatístico nem representa a frequência de publicidade recebida por todos os usuários, mas registra a intensidade a que uma única conta esteve exposta naquele momento.
Os anúncios registrados pelo portal mostram diferentes empresas e plataformas, algumas delas identificadas nas próprias peças como autorizadas pelo Ministério da Fazenda. A repetição chama atenção não apenas pela quantidade. As campanhas usam personagens, animais, cores intensas, moedas, baús, festas e cenários de fantasia, enquanto as ofertas apresentam dezenas ou centenas de rodadas por valores relativamente baixos.
Nos registros feitos pelo Âncora1 aparecem chamadas como 50 rodadas por R$ 5, 100 rodadas por R$ 10, 200 rodadas por R$ 10 e até 1.000 rodadas por R$ 50. Outros anúncios oferecem 300 rodadas grátis, bônus por indicação e pacotes vinculados a depósitos. Em comum, várias peças exibem o aviso obrigatório de que apostas são destinadas a maiores de 18 anos e de que “aposta não é investimento”.
A aposta entra no meio do que o usuário escolheu assistir
Há uma diferença importante entre procurar deliberadamente uma plataforma de apostas e encontrar sucessivos anúncios enquanto se consome outro tipo de conteúdo. Nos Stories, a publicidade aparece entre as publicações escolhidas pelo usuário e ocupa praticamente toda a tela do celular. Para continuar navegando, é preciso aguardar, avançar manualmente ou interagir com o anúncio.
É como caminhar por uma loja e, repetidamente, alguém colocar um cartaz diante do rosto oferecendo o mesmo tipo de produto. O usuário pode ignorá-lo e seguir adiante, mas primeiro precisa passar pela oferta. No ambiente digital, essa interrupção pode se repetir diversas vezes durante poucos minutos de navegação.
A análise do Âncora1 evidencia justamente essa exposição. Quase um em cada dois Stories observados naquela sequência era publicidade de aposta. Não se trata de afirmar que essa proporção será reproduzida em outras contas, horários ou plataformas, já que a distribuição de anúncios é personalizada por sistemas digitais. O dado mostra, porém, o nível de presença que esse conteúdo pode alcançar na experiência individual de um usuário.
Bichinhos, moedas e um universo de diversão
Outro aspecto perceptível nas imagens é a linguagem visual. Tigres, cavalos, coelhos, personagens animados e cenários extremamente coloridos aparecem associados a moedas, prêmios, rodadas e bônus. Em algumas peças, a estética se aproxima muito mais da apresentação de um jogo casual de celular do que da imagem tradicional de uma aposta envolvendo dinheiro.
Essa combinação merece atenção especial quando o debate chega a crianças e adolescentes. Embora as próprias peças analisadas tragam indicação de conteúdo para maiores de 18 anos, a linguagem visual utilizada recorre a elementos familiares ao universo dos games e da animação. A exposição também não ocorre necessariamente apenas pelo perfil do menor. O contato pode acontecer pelo celular, pelas redes sociais e pelos hábitos digitais dos adultos que fazem parte de sua convivência.
O problema ganha outra dimensão para pessoas que já apresentam comportamento problemático relacionado ao jogo. Nesse caso, uma oferta que para parte do público pode ser simplesmente ignorada representa um estímulo colocado repetidamente no caminho de quem tenta controlar ou interromper as apostas.
O aviso está lá, mas a oferta ocupa quase toda a tela
Há ainda um contraste visual evidente nos próprios anúncios registrados. As advertências sobre jogo responsável, classificação 18+ e a frase “aposta não é investimento” aparecem nas peças, mas dividem espaço com chamadas muito mais destacadas para rodadas, bônus, depósitos e valores de entrada.

Em uma das propagandas, por exemplo, a promessa visual dominante é de 1.000 rodadas por R$ 50. Em outra, 100 rodadas custam R$ 10. Uma terceira oferece 50 rodadas por R$ 5. São valores apresentados de maneira a reduzir a percepção do desembolso inicial, embora cada nova rodada mantenha o usuário dentro de uma atividade em que existe risco de perda financeira | Imagem: Reprodução/Redes Sociais
É justamente aí que educação financeira e prevenção ao jogo problemático se encontram. A aposta não deve ser confundida com investimento, renda extra ou estratégia para recuperar dinheiro perdido. Mesmo quando apresentada como entretenimento, envolve recursos financeiros reais e resultados incertos.
Uma publicidade que o usuário não precisa procurar
O experimento do Âncora1 deixa uma questão que vai além de uma empresa específica. As dez capturas feitas durante a navegação mostram marcas diferentes anunciando produtos semelhantes, sinal de um mercado que disputa intensamente a atenção dentro das redes sociais.
Para quem nunca aposta, a sequência pode significar apenas publicidade indesejada. Para famílias com crianças e adolescentes, amplia a discussão sobre referências e educação financeira dentro de casa.
Para quem enfrenta perda de controle com jogos, porém, a repetição transforma uma atividade cotidiana, simplesmente assistir aos Stories, em um ambiente no qual estímulos para voltar a apostar podem surgir sucessivamente sem que tenham sido procurados.
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